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“Estou esperando minha medalha olímpica da corrupção”, ironiza Papa Diack

Por Adriana Moysés

Em entrevista à revista francesa L’Obs, atualmente nas bancas, o senegalês Papa Massata Diack reage às acusações da Procuradoria brasileira e do Ministério Público francês de ser o receptor da propina usada na suposta compra de votos para o Rio de Janeiro sediar os Jogos Olímpicos de 2016. A publicação francesa destaca que "não é todo dia que se consegue falar com um homem com tantos troféus judiciários".

Papa Diack falou à L'Obs por telefone de sua mansão em Dacar, no Senegal. Ele negou ter recebido dinheiro sujo em nome de seu pai, Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e membro do Comitê OIímpico Internacional (COI) com direito a voto na atribuição da cidade-sede das Olimpíadas de 2016.

Com voz firme, seguro de si e fiel à reputação de ‘golden boy’ do marketing esportivo, Papa Diack nega ter recebido US$ 2 milhões para seu pai votar a favor do Rio de Janeiro. O entrevistado justifica: "O Rio tinha todos os atributos para vencer. A cidade ganhou com 66 votos contra 32 para Madri. Você acha que daria para comprar dez votos africanos com US$ 2 milhões?", questiona, insinuando ao repórter da L'Obs que seria pouco dinheiro.

Papa Diack declara inocência, mas transações bancárias mostraram que a empresa Matlock Capital Group, pertencente ao empresário Arthur Soares, foragido e próximo do ex-governador Sergio Cabral (RJ), pagou esse montante a duas empresas do senegalês, três dias antes da votação decisiva no COI.

Formado nos EUA

Num momento da entrevista, o jeito irônico assume uma tonalidade agressiva e Papa Diack declara ser "vítima de um complô". Seu pai, Lamine Diack, também é investigado pela justiça francesa por sua atuação à frente da Federação Internacional de Atletismo, entre 1999 e 2015. Pai e filho são acusados de receber propina para encobrir casos de doping na Rússia.

A revista recorda a carreira de Papa Diack. Ele estudou em Paris e em San Diego, nos Estados Unidos. "Iniciou sua carreira na Suíça vendendo cotas de patrocínio e direitos de transmissão de eventos esportivos à televisão, além de ter trabalhado como consultor para os governos da Nigéria, do Togo e do Catar."

Quando começou a atuar como consultor internacional, Papa Diack diz que passou a cobrar 8% do valor de cada contrato concluído, por isso fez fortuna. Também conta com orgulho que, graças aos seus contatos pessoais, conseguiu conquistar US$ 216 milhões para o caixa da Federação Internacional de Atletismo. Ele não cita que seu pai foi banido pelo comitê de ética da federação após o escândalo russo.

À espera de provas

Segundo a L’Obs, Papa Diack é desses homens que fizeram milhares de dólares chegarem a áreas onde só havia o esporte amador.

Como explicar, então, o aparecimento de seu nome nas investigações sobre o Rio de Janeiro e a Rússia, as suspeitas de propina e os artigos de luxo que Papa Diack comprou em Paris por centenas de milhares de euros? "É meu dinheiro, ganhei cobrando a comissão de 8%", responde o senegalês. "Depois de 22 meses de investigação, onde estão as provas?", questiona em tom desafiador.

Interrogado se tem consciência de que é visto por seus detratores como um campeão olímpico da corrupção, Papa Diack retruca: "Campeão Olímpico da Corrupção? Estou esperando minha medalha". O repórter pergunta se ele não tem medo de receber a visita de juízes. Resposta do interessado: "Vou dizer 'welcome in Senegal'".

A L'Obs conclui o relato da curta entrevista lembrando que as investigações continuam.

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