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Zimbábue Golpe militar Robert Mugabe

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Golpe no Zimbábue pode pôr a fim a 37 anos de governo Mugabe

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Presidente Robert Mugabe ao lado da esposa, Grace Mugabe. REUTERS/Philimon Bulawayo

A situação prosseguia confusa nesta quinta-feira (16) no Zimbábue, no dia seguinte ao golpe de Estado militar que colocou em prisão domiciliar o presidente Robert Mugabe, que estava há 37 anos no poder. A intervenção dos militares, que tomaram o controle dos pontos estratégicos da capital, pode por fim ao último regime africano liderado por um "pai da libertação", a geração de chefes surgido durante as lutas pela independência.


Apesar das aparências, os generais golpistas afirmam que não têm a intenção de derrubar o governo. "Não se trata de uma tomada do governo pelos militares. Nosso objetivo são os criminosos ao redor do presidente", declarou o general Sibusiso Moyo, porta-voz dos golpistas, em um discurso transmitido ao vivo na noite de terça-feira (14) pela televisão estatal.

Os "criminosos" em questão não tiveram seus nomes citados e são uma alusão aos partidários da primeira-dama, Grace Mugabe, uma parcela do partido no poder, a Zanu-PF, reagrupado por trás da G40 em referência à idade da esposa do presidente detido.

Há meses, a segunda esposa do "camarada Bob" não esconde sua vontade de suceder o marido. Na semana passada, ela conseguiu que ele destituísse o vice-presidente Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, um militante histórico do combate pela independência, ligado aos militares e apresentado até então como seu herdeiro político.

A destituição levou as Forças Armadas a atuar. Na segunda-feira, o chefe do Estado-Maior, o general Constantino Chiwenga, advertiu claramente que se o expurgo prosseguisse no partido do presidente, suas tropas poderiam intervir.

Os sinais de que o exército visa aos partidários de Grace Mugabe são as desculpas públicas de um de seus apoios. "Peço sinceramente ao general Chiwenga que aceite minhas desculpas", declarou o líder da Liga Juvenil do Zanu-PF, Kdzai Chipanga, em mensagem lida na televisão na noite de quarta-feira. "Ainda somos jovens, aprendemos com nossos erros."

Ocupação sem resistência

Os militares se impuseram sem oposição. Houve apenas alguns disparos na noite de terça-feira, perto da residência presidencial. Robert Mugabe, privado de sua liberdade, declarou que estava bem em uma conversa com seu colega sul-africano Jacob Zuma. Não comentou a situação nem falou de suas intenções.

No dia seguinte à intervenção militar, os habitantes em Harare prosseguiam normalmente a rotina. A União Africana denunciou "o que parece um golpe de Estado". Também exigiu "que seja restabelecida imediatamente a ordem constitucional".

Reunião de emergência da União Africana

Zuma, fiel aliado de Mugabe, disse estar muito preocupado com a situação e enviou a Harare, em nome da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), organização regional que preside, dois de seus ministros para se reunir com Mugabe e com os militares. O bloco regional organiza, além disso, uma reunião de emergência nesta quinta, em Botswana.

Reino Unido, ONU e União Europeia pediram cautela às partes e que se resolva a situação através do diálogo. Derek Matyszak, analista do Instituto de Estudos da Segurança (ISS) de Pretória, prevê negociações para a saída de Mugabe e de sua esposa.

"Acho que Mugabe pode ficar no país", afirma, explicando que "a dificuldade da família Mugabe é garantir a segurança de Grace em troca da saída de Robert". O ministro das Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, afirmou que o Zimbábue está ante uma mudança decisiva. "É um momento de esperança, mas ninguém quer uma transição em que um tirano seja substituído por outro", disse.

Com informações da AFP