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Zimbábue Robert Mugabe Renúncia

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Presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, anuncia sua renúncia aos 93 anos

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Robert Mugabe em Harare, no Zimbábue, em julho de 2008. REUTERS/Philimon Bulawayo

O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, de 93 anos, anunciou nesta terça-feira (21) a sua renúncia, após 37 anos de poder, pressionado pelo Exército, seu partido e pelas ruas.


Mugabe disse certa vez que iria governar o Zimbábue até os 100 anos, levando ao extremo a imagem de déspota africano disposto a fazer de tudo para se manter no poder.

Aplaudido em 1980 como herói da independência, que até então era o chefe de Estado em atividade mais velho do planeta, foi preso em sua residência na semana passada pelas Forças Armadas e desde então era pressionado a deixar pacificamente o governo.

"Foi um líder formidável, mas o poder acabou o degenerando, a ponto de ele colocar o Zimbábue de joelhos", resumiu Shadrack Gutto, professor da Universidade da África do Sul.

Quando, em 1980, Mugabe assumiu o comando do país, recém-surgido da antiga Rodésia, colônia britânica onde governava uma minoria branca, seu discurso sobre reconciliação e união lhe valeu elogios em nível internacional.

O ex-prisioneiro político convertido em líder da guerrilha chegou ao poder depois que o governo da minoria branca foi obrigado a negociar, em meio a sanções econômicas e à ameaça crescente da insurgência.

Mas seu brilho inicial não demorou a se apagar. O ex-chanceler britânico Peter Carrington conheceu bem Mugabe, durante as conversas que abriram caminho para a independência do Zimbábue.

“Natureza réptil”

"Mugabe não era nada humano", disse Carrington à biógrafa de Mugabe, Heidi Holland. "Tinha uma espécie de natureza réptil. Podia-se apreciar sua capacidade e seu intelecto (...) mas era uma pessoa horrível e pouco confiável", assinalou.

Nas últimas décadas de seu mandato, Mugabe recriou-se no papel de antagonista do Ocidente.

Valendo-se de uma retórica agressiva, responsabilizou as sanções ocidentais pela crise econômica profunda do país, embora esta afetasse apenas ele e seus colaboradores, e não toda a economia.

"Se as pessoas dizem que você é um ditador (...) sabe-se que estão dizendo isso apenas para manchar seu status, então não se deveria dar muita atenção a isso", afirmou em um documentário lançado em 2013.

O tema da sucessão foi um tabu que se estendeu por décadas, mas depois que Mugabe completou 90 anos, a elite no poder se envolveu em uma luta implacável.

Grace, sua segunda mulher, uma ex-secretária 41 anos mais jovem do que Mugabe e que está entre os candidatos a sucedê-lo, contou que, mesmo após os 80 anos, ele se levantava antes do amanhecer para fazer exercícios.

Mas, nos últimos anos, Mugabe sofreu algumas quedas em público. Em outra ocasião, fez um discurso equivocado na abertura do parlamento.

Um católico marxista

Mugabe, nascido em 21 de fevereiro de 1924 em uma família católica na missão de Kutama, noroeste de Harare, foi descrito como uma criança solitária e estudiosa.

Depois que seu pai abandonou a família, quando ele tinha 10 anos, manteve-se dedicado aos estudos, e, aos 17 anos, tornou-se professor.

Inicialmente, identificou-se com o marxismo. Durante sua época de estudante na Universidade de Fort Hare, África do Sul, fez amizade com muitos dos futuros líderes africanos.

Após trabalhar como professor em Gana, onde foi muito influenciado pelo presidente e fundador daquele país, Kwame Nkrumah, decidiu retornar à Rodésia, onde foi preso em 1964 por suas atividades políticas.

Mugabe passou 10 anos na prisão. Nesse período, fez três cursos por correspondência, mas o tempo em que permaneceu preso deixou suas marcas.

Seu filho, fruto do primeiro casamento, com a ganense Sally Hayfron, morreu enquanto ele estava preso, aos 4 anos de idade. O líder da Rodésia, Ian Smith, não permitiu que Mugabe comparecesse ao funeral.

Mas, após décadas no poder, a oposição contra Mugabe começou a ganhar força.

"Sua verdadeira obsessão nunca foi o enriquecimento pessoal, e sim o poder", afirmou o biógrafo Martin Meredith.

"Ano após ano, Mugabe se manteve no comando mediante a violência e repressão, voltando-se contra os opositores políticos, transgredindo os tribunais, pisando nos direitos de propriedade, eliminando a imprensa independente e interferindo nas eleições", assinalou.

(Com informações da AFP)