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Sul-africanos se reúnem em frente à casa de Winnie Mandela para homenagem

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Sul-africanos cantam em homenagem à Winnie Mandela em sua residência em Soweto, África do Sul, em 3 de abril de 2018. REUTERS/Siphiwe Sibeko

Sul-africanos homenageram Nomzamo Winifred Madikizela Zanyiwe, mais conhecida como "Winnie", em frente à sua casa em Soweto, nesta terça-feira (3). A líder do movimento anti-aparthaid e ex-mulher de Nelson Mandela morreu na segunda-feira (2), aos 81 anos, em Joanesburgo por uma infecção renal recorrente.


Líderes sul-africanos, amigos e vizinhos visitaram a casa de Winnie Mandela nesta terça-feira (3) para oferecer suas condolências. As ruas que levam à casa foram fechadas pela polícia e apenas jornalistas podiam passar. 

Segundo o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, que a descreveu como "um símbolo permanente do desejo de nosso povo de ser livre," haverá um serviço fúnebre no dia 11 de abril e um funeral de Estado em 14 de abril. 

Zweli Mkhize, ministro sênior no governo do partido Congresso Nacional Africano (ANC), disse que a morte de Winnie Mandela marcou "o fim de uma era", já que ela era uma das mais importantes líderes nos dias mais sombrios da luta contra o apartheid. "Estamos perdendo os últimos poucos combatentes da liberdade e eu acho que o que temos que fazer é sempre tirar lições da sua vida." 

"Quando ela teve que enfrentar o governo do apartheid, ela era destemida - mas também entre nós, ela nunca foi tímida para críticar o que não estava funcionando," disse Mkhize na frente da casa de Winnie. 

O líder da oposição radical Julius Malema, que se tornou confidente de Winnie Mandela nos últimos anos, também estava entre os que lamentaram sua morte na modesta casa de tijolos vermelhos na terça-feira (3).

"Porque (ela) estava vivendo com seu povo, e nunca os traiu, eles lhe deram o título de 'Mãe da nação'", disse ele. "Estamos aqui para celebrar a vida de uma pessoa que nunca desprezou os negros e os pobres".

Malema também atacou quem criticou seu passado, dizendo que "o mínimo que podemos fazer é defendê-la na morte e não permitir que os racistas a insultem". "Eles a temem mesmo na morte", completou. 

A Liga das Mulheres do ANC, que Winnie Mandela liderou, fará uma marcha até sua casa na quarta-feira (4).

Reputação questionável
   
A maioria dos 38 anos de casamento de Winnie Mandela com Nelson foi à distância, já que ele esteve preso por 27 anos, enquanto ela criava as duas filhas do casal e mantinha vivo seu sonho político.

Glamurosa e resistente, ela desempenhou um papel importante na batalha contra a opressão dos negros na África do Sul. Durante a prisão do marido, Winnie fez uma campanha incansável pela sua libertação. Torturada e sujeita a repetidas prisões domiciliares, ela foi mantida sob vigilância e, em 1977, banida para uma cidade remota em outra província. 

Em 1991 Winnie foi condenada por ordenar o sequestro de Stompie Moeketsi, um garoto de 14 anos, que foi espancado e depois teve sua garganta cortada por membros de sua guarda pessoal em 1989. Ela e Mandela se separaram em 1992 e sua reputação sofreu um novo baque quando ele a demitiu de seu gabinete em 1995, após alegações de corrupção. O casal se divorciou um ano depois. Em 2003,  foi considerada culpada de roubo e fraude em empréstimos bancários.

Durante sua velhice, Winnie ressurgiu como uma das últimas representantes vivas da geração que lutou contra a segregação racial, além de representar uma lembrança viva do falecido Mandela. O arcebispo Desmond Tutu, Nobel da Paz, descreveu-a como "um símbolo definidor" da batalha contra a opressão.

"Ela se recusou a se calar após a prisão de seu marido, o assédio perpétuo de sua família por forças de segurança, detenções, e banimento", disse Tutu. "Sua corajorsa rebeldia foi profundamente inspiradora para mim e para gerações de ativistas", completou.

Sul-africanos homenageiam Winnie Mandela em sua residência em Soweto, África do Sul, em 3 de abril de 2018. REUTERS/Siphiwe Sibeko