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Argélia Demissão Abdelaziz Bouteflika Política Imprensa

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Argelinos comemoram demissão de Bouteflika, mas transição política preocupa a população

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Imagem de vídeo exibido pela emissora de TV Ennahar mostra Bouteflika entregando sua carta de demissão nesta terça-feira, 2 de abril de 2019. ENNAHAR TV / AFP

A imprensa francesa analisa nesta quarta-feira (3) a demissão do presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, de 82 anos. A TV argelina informou ontem à noite que ele "avisou oficialmente o Conselho Constitucional do fim de seu mandato como presidente da República". Bouteflika cedeu depois de ser abandonado pelo Exército ante a uma onda inédita de protestos, iniciada há mais de um mês. Os argelinos exigem a modernização completa do sistema político no país.


"O fim de Bouteflika", anuncia sumariamente a manchete do Le Figaro. O jornal conservador informa que o presidente argelino, que governou o país por 20 anos, pediu demissão na terça-feira (2), pressionado pelas ruas. As manifestações populares e o Exército destronaram Bouteflika.

O Conselho Constitucional argelino deve decidir nesta quarta-feira (3) como será o governo interino. A instituição deve declarar a incapacidade do presidente, por motivo de doença, e a partir de quando ele será substituído interinamente pelo presidente do Senado por 45 dias, renováveis por mais 90 dias. Durante este prazo, eleições presidenciais devem ser organizadas no país.

Os problemas estão apenas começando, prevê um ex-colaborador da presidência argelina, entrevistado pelo Le Figaro. Segundo ele, o sistema não aceita o atual presidente do Senado, Abdelkader Bensalah, que como Bouteflika também está doente. Será necessário criar um consenso em torno de um candidato alternativo em menos de cinco meses, explica o ex-conselheiro, considerando o contexto complexo.

Enquanto isso, uma página da história do país foi virada, no final de uma jornada cheia de suspense. No início da noite, o chefe do Estado-Maior, general Ahmed Gaid Salah, sentindo que a transição política no país fugia ao controle do Exército, exige em um comunicado que o presidente seja destituído, como manda a Constituição. Menos de uma hora depois, Bouteflika, que até então tentava controlar a transição, pede demissão indicando que a relação de forças mudou no país, avalia Le Figaro.

Bouteflika reinou sozinho durante 20 anos graças aos lucros do petróleo, principal riqueza nacional. Ele pode comprar e desmobilizar a oposição e a sociedade civil, fragilizadas após a guerra civil de 1990 no país, informa o jornal.

Buzinaço comemora vitória nas ruas

Ontem houve comemoração nas ruas da Argélia, escreve o Le Parisien. Um buzinaço festejou a notícia da demissão do presidente vários dias antes da data anunciada de 28 de abril. Os argelinos, que manifestavam há seis semanas contra um quinto mandato e a permanência do presidente de 82 anos no poder, venceram, mas permanecem prudentes. A demissão era uma das reivindicações do movimento, mas eles querem o fim do "regime Bouteflika". Quando assumiu o país em 1999, ele rapidamente colocou fim à guerra civil que matou 150.000 pessoas em dez anos. Porém, seu "reinado" também foi marcado pela corrupção e mais recentemente a estagnação econômica, ressalta o Le Parisien.

Argelinos celebram nas ruas de Argel o fim da era de Abdelaziz Bouteflika. REUTERS/Ramzi Boudina

Sem a pressão do Exército, que dispensou Bouteflika, o presidente não teria precipitado sua decisão, acreditam Les Echos e Libération. "Não há mais tempo a perder" sentenciou o general Gaiad Salah, que se disse ao lado do povo. O Exército argelino considerou "sem autenticidade" o comunicado presidencial, divulgado na última segunda-feira (1) e que anunciava que Bouteflika deixaria o poder até 28 de abril, último dia de seu quarto mandato.

Les Echos ressalta que o general Salah criticou ontem o clã Bouteflika de ter agido fraudulentamente. O jornal econômico lembra que a elite do Exército também se beneficiou do sistema atual.

Agora, a reação dos argelinos será crucial. A questão em aberto é saber se os manifestantes vão aceitar uma eleição presidencial controlada pela ala militar do regime e, portanto, sujeita a fraudes, evoca o jornal. Um sinal de que o Exército espera refazer sua imagem é que ele proibiu qualquer decolagem de jatinhos privados e deu ordem para interceptar todos os empresários envolvidos em escândalos que tentem fugir do país.