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Sudão Golpe militar Protestos

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Decepcionados, sudaneses voltam às ruas contra golpe militar

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Sudão: manifestantes continuam nas ruas pedindo democracia 12/04/19 EUTERS/Stringer

Milhares de manifestantes decepcionados com os rumos da revolta contra o governo do Sudão voltaram às ruas de Cartum nesta sexta-feira (12), para exigir a saída dos generais do poder. Na quinta-feira (11), o presidente Omar al Bachir foi destituído pelas Forças Armadas, que prometeram “um governo civil”, mas não determinaram um prazo.


Os manifestantes querem uma verdadeira transição democrática. Desafiando o toque de recolher entre 20h e 2h, eles passaram mais uma noite (a sexta consecutiva) diante do quartel-general do Exército em Cartum. Não há relatos de incidentes.

Em uma coletiva de imprensa nesta sexta, retransmitida pelas televisões, o general Omar Zinelabidin tentou acalmar os manifestantes, que violaram o cessar-fogo em vigor no país. Na véspera, o ministro da Defesa havia anunciado que Bachir seria substituído por um conselho militar de transição, durante dois anos.

Objetivo é acabar com o regime

Para o porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses, que lançou o movimento em dezembro, a solução apresentada é unilateral e ineficaz. “Não fizemos tudo isso para chegar aqui. Um pequeno objetivo foi alcançado, a saída do general al Bashir, mas ainda tem todo o resto a ser feito”, afirmou Rachid Saeed Yacub, em entrevista à RFI. “A revolução não era só para destituí-lo, mas para acabar com um regime. Não foi para receber uma declaração de seu vice-presidente e do ministro da Defesa afirmando que a luta já acabou. Permanecemos vigilantes quanto ao que esse novo poder vai anunciar.”

Yacub avalia como positiva a saída de Bachir, que governou o país com mão de ferro por 30 anos. Mas ele garantiu que os protestos vão continuar “para pressionar os militares a tomar decisões mais radicais do que as que foram tomadas” até o momento.

Nas ruas de Cartum, a determinação dos manifestantes é palpável. "Não há nenhuma diferença para nós (...). Esta é nossa praça. Nós a tomamos e não vamos abandoná-la até que consigamos a vitória", declarou à agência AFP Abu Obeida, um dos manifestantes. "O regime realizou um golpe de Estado militar apresentando os mesmos rostos (...) contra os quais nosso povo se levantou", denunciou, em um comunicado, a Aliança pela Liberdade e a Mudança.

Promessa de diálogo

O conselho militar de transição prometeu discutir com todas "as entidades políticas" do país e que o futuro governo será "civil". "Vamos dialogar com o objetivo de preparar o clima para as negociações e para a realização das nossas aspirações", declarou o general Zinelabidin. Ele ressaltou que os militares não permitirão "nenhum ataque contra a segurança".

Zinelabidin confirmou que Bachir foi preso após deixar a presidência, porém “não será extraditado”. Em 2009, o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, lançou um mandado de prisão por "crimes de guerra e contra a humanidade" em Darfur, região do oeste do Sudão afetada pela violência. Em 2010, somou-se a acusação de "genocídio". O conflito em Darfur deixou mais de 300.000 mortos e 2,5 milhões de deslocados, segundo a ONU.

Os Estados Unidos e a União Europeia fizeram apelos para que os militares entreguem o poder aos civis o quanto antes. O secretário-geral da ONU, Antonio Guteres, pediu que a transição cumpra as aspirações democráticas dos sudaneses, e solicitou "calma e máxima moderação de todos". O Sudão é um dos países mais pobres do planeta.

Com informações da AFP