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Zimbábue

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Zimbábue presta homenagem nacional a ex-presidente Robert Mugabe

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Homenagem nacional a Robert Mugabe, em Harare (14/9/19). REUTERS/Siphiwe Sibeko

Uma grande cerimônia com corpo presente acontece em Harare em homenagem ao ex-presidente Robert Mugabe, que morreu no dia 6 de setembro, em Cingapura. Vários chefes de Estado africanos participam da cerimônia no estádio nacional neste sábado (14). O enterro deve acontecer dentro de um mês.


Reportagem de Vinícius Assis, em Harare

Até sexta-feira (13) havia duas incertezas no Zimbábue: a data e o local do enterro do ex-presidente Robert Mugabe. Enquanto dezenas de pessoas velavam o corpo de um dos mais polêmicos líderes africanos na mansão onde ele viveu com a família nos últimos anos, e alguns aproveitavam no gigantesco jardim o buffet que era servido, o porta-voz do clã, Leo Mugabe, anunciou para a imprensa que o enterro - até então esperado para este fim de semana - ainda demoraria um mês para acontecer.

O comunicado foi feito no início da noite desta sexta-feira (13), uma semana após a morte do ex-presidente. Ele morreu aos 95 anos em Cingapura, onde estava internado desde o mês passado. Após uma cerimônia no Estádio Nacional dos Esportes, que neste sábado, o corpo segue para Svimba, terra natal de Mugabe e onde, inicialmente, a família queria sepultá-lo, em local discreto.

A reportagem esteve na mansão de Mugabe, conhecida pelo emblemático telhado azul estilo chinês, na área mais nobre da capital Harare. No gigantesco jardim foi montado uma grande estrutura para receber quem quisesse participar do funeral, com centenas de cadeiras, palcos e telões. Dentro da mansão há familiares perto do caixão todo o tempo. Isso foi um pedido do supersticioso Mugabe, ainda em vida, para evitar que fizessem algum ritual de feitiçaria com seu corpo.

Havia um forte esquema de segurança. O jardim foi dividido em duas partes: uma espécie de área VIP, com acesso ao interior da mansão, e uma segunda parte, maior, para a maior parte da população.

Três zimbabueanas chamavam atenção no jardim usando roupas e acessórios com a foto do ex-presidente: as irmãs Elisabeth Mabulire (66), Cristine Mhzanhanga (54) e a prima Margareth Marisa (63). Perguntadas sobre o título de herói, as três concordaram que é merecido. “Ele foi um grande líder, devemos tudo a ele”, enfatizou Cristine.

Ao falar do professor que abandonou a profissão para se unir à luta armada contra a opressão e o segregacionismo do governo branco e excludente da antiga Rodésia do Sul, as três lembraram que ele era um grande incentivador da educação.

Apoio dos mais velhos

Mugabe tem o apoio principalmente dos mais velhos. Mas, apesar de serem minoria nos países da África, continente com a população mais jovem do mundo, os mais vividos costumam ter a última palavra na família e suas opiniões normalmente são seguidas a risco, principalmente em áreas rurais, onde o clima é de desolação.

Em um rápido encontro - não agendado - na recepção da embaixada do Brasil em Harare, a embaixadora Ana Maria Pinto Molares lembrou que Robert Mugabe é considerado o pai da República do Zimbábue. “Ele é controvertido. Foram duas décadas de excelente governo, mas depois de 2000 o país entrou em derrocada. Porém foi um dos maiores líderes na luta contra contra o colonialismo”, disse. Ana Maria conheceu o ex-presidente pessoalmente, pois foi ao país na década de 1990 como encarregada de negócios e depois assumiu o comando da embaixada brasileira em 2017, pouco antes de Mugabe ser forçado a deixar o cargo pelo exército e seu partido (ZANU PF) após 37 anos no poder. Foi um dos presidentes mais longevos do mundo.

Ainda no jardim da mansão Blue Roof (Telhado Azul), a reportagem falou com Allen Jani, zimbabueano de 23 anos que fez questão de estar nesse evento histórico. “Mugabe é um herói, um ícone. Pai lutador”, afirmou orgulhoso. O apoio dos mais jovens não é algo comum, embora nem todos assumam isso para um jornalista.

Mansão de Mugabe. Foto: Vinícius Assis/RFI

Perto de Allen estava uma jovem que aparentava ter a mesma idade. Concordou em dar entrevista. Perguntada sobre a preferência dos mais jovens pelo atual líder da oposição Nelson Chamisa, a jovem disse que não se sentia confortável para continuar a entrevista.

Na opinião do jornalista e professor de História da África no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio Alexandre dos Santos, Robert Mugabe será lembrado por dois legados importantes e conflitantes.

“O primeiro, foi o herói da libertação do Zimbábue. Um homem que se tornou um admirável lutador pela liberdade de expressão da maioria negra do país. Um estadista que, 14 anos antes de Nelson Mandela fazer o mesmo na África do Sul, se tornou o primeiro primeiro-ministro de seu país e estabeleceu um governo de apaziguamento garantindo os direitos políticos e de propriedade da minoria branca”, disse Alexandre dos Santos.

Expoente da cleptocracia

Mas o especialista em assuntos ligados ao continente africano também lembrou outro legado do ex-presidente. “Mas o mesmo Mugabe que se tornou um líder absolutista deu um sentido concreto ao termo 'cleptocracia', que era usado em teoria pelos economistas. Mudou a Constituição para concentrar cada vez mais poder, perseguiu adversários. É acusado de mandar matar líderes oposicionistas como o ex-companheiro de guerrilha pela libertação do Zimbábue, Joshua Nkomo”, comparou.

Alexandre dos Santos destacou que Robert Mugabe foi capaz de mandar as forças armadas massacrarem a etnia ndebele, oposicionista e majoritária no sul do Zimbábue, três anos depois da independência do país.

Ao falar do polêmico líder, o professor da PUC-Rio comentou a polêmica reforma agrária promovida por Mugabe e a situação econômica do país, que vem há tempos declinando.

“Ele foi o líder que dilapidou a economia do próprio país, se cercando de uma elite econômica e política apaziguada ao preço de muita corrupção, levou o país a uma hiperinflação jamais vista em 2008, que chegou a 231 milhões por cento. Promoveu uma reforma agrária criminosa e atabalhoada, expulsando antigos agricultores brancos de suas terras produtivas e distribuindo para aliados políticos e veteranos da guerra pela independência. Isso levou o país, que antes era o maior produtor de grãos da África Setentrional, a uma crise de fome que transbordou para países vizinhos como o Maláui e Zâmbia”.

O enterro de Robert Mugabe será em outubro. A família espera que até lá haja tempo suficiente para a construção de um mausoléu. Prevaleceu a vontade do atual governo e o corpo ficará no cemitário dos heróis, na capital.

“Robert Mugabe foi o típico herói revolucionário que se deixou seduzir e corromper pelo poder. Foi a personificação da frase de lorde John Acton, 'o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente'", concluiu o professor Alexandre dos Santos.