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Recessão brasileira provoca desemprego na Argentina

Por Márcio Resende

Cerca de 250 mil empregos argentinos foram ou serão destruídos por culpa da crise brasileira, principalmente no setor automotivo, responsável por 40% do comércio bilateral.

Correspondente da RFI em Buenos Aires

Se o Brasil é o motor da região, esse motor pifou. Primeiro foi a desvalorização do real a partir de 2014. Mas o impacto agora é ainda pior: a recessão brasileira provoca desemprego nos países do Mercosul. E o mais afetado pela crise no Brasil é a Argentina.

As montadoras por aqui começaram a suspender trabalhadores devido à forte queda na demanda brasileira. Fiat e Volkswagen são as primeiras. De todos os setores nos dois países, aquele que mais emprega é o automotivo. De todo o comércio bilateral, 40% responde a essa indústria. E metade da produção argentina de veículos vai ao Brasil.

Brasil deve ser responsável por 1,5 ponto do desemprego na Argentina

O ex-secretário da Indústria argentino, Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb, especializada no comércio com o Brasil, calcula que em 2015 e 2016, o Brasil seja responsável por 1,5 ponto do desemprego na Argentina. Em outras palavras, o estrago brasileiro fez e fará cerca de 250 mil pessoas perderem o emprego no país vizinho.

"O ajuste mais forte no setor industrial e em algumas produções agropecuárias do interior, como frutas, verduras, azeitonas e azeite de oliva, foi muito forte no ano passado. Podemos dizer que aumentou um ponto do desemprego na Argentina no ano passado e a perspectiva neste ano é de um agravamento que explique mais meio ponto no aumento do desemprego", analisa.

As exportações argentinas de automóveis ao Brasil caíram 37% no ano passado e a produção argentina de automóveis encolheu 11,5% em 2015. É como se a falta de pedidos do Brasil fizesse as montadoras na Argentina pararem por dois meses, como explica o especialista no comércio bilateral Dante Sica.

"O setor mais afetado pela recessão no Brasil é o automotivo. A queda da demanda no Brasil representa quase dois meses da produção argentina. Isso teve um impacto muito forte na estabilidade do emprego. As empresas que trabalhavam com dois ou três turnos, tiveram de os eliminar", descreve. As exportações argentinas ao Brasil caíram, no total, 27,3% no último ano. Vão para o Brasil 40% dos produtos industrializados argentinos, aqueles que mais mão-de-obra empregam.

No comércio bilateral, a Argentina tem déficit com o Brasil: U$S 2,5 bilhões. Muito bom para o Brasil, mas péssimo para o emprego por aqui. O ministro argentino da Produção, Francisco Cabrera, no entanto, descarta medidas restritivas contra o Brasil e prefere apostar em que os dois países possam conquistar juntos novos mercados.

"A balança comercial tem sido muito deficitária. De qualquer forma, na relação com o Brasil, nós não queremos tomar decisões por razões conjunturais. Entre Brasil e Argentina decidimos que vamos buscar novos mercados. Juntos vamos trabalhar para ganhar novos mercados", indica. A grande aposta de Brasil e Argentina, siameses na recessão, é por um acordo de livre comércio com a União Europeia que permita ao Mercosul sair do seu confinamento.

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