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Hillary e Trump falham na resposta a catástrofes naturais nos EUA

Por RFI

A menos de três meses das eleições gerais nos Estados Unidos, as atenções da mídia norte-americana se voltaram esta semana para a Louisiana e a Califórnia. O primeiro estado, cuja maior cidade é Nova Orleans, está sofrendo com tempestades de verão incessantes que causaram enchentes jamais vistas em cidades como a capital, Baton Rouge. A coincidência é que, ao mesmo tempo, a costa oeste do país enfrenta uma seca recorde e uma sucessão de incêndios. Os desastres naturais entraram, como esperado, na pauta dos candidatos à sucessão de Barack Obama.

Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

O governo federal decretou situação de calamidade pública na Louisiana e, até a manhã desta quinta-feira (18), pelo menos 13 pessoas haviam morrido por conta das enchentes no estado sulista. Pelo menos 40 mil casas foram destruídas e algumas localidades pequenas do sul da região, onde as chuvas foram mais intensas, simplesmente desapareceram da noite para o dia, com vizinhanças inteiras submersas. A tragédia também atingiu o estado vizinho do Mississipi.

Apesar de as chuvas terem diminuído nas últimas 24 horas, autoridades da Louisiana já trabalham com a perspectiva de que, pelo menos em termos de pessoas desalojadas, pode-se chegar a um número similar ao do furacão Katrina, em 2005, com mais de 150 mil sem-teto. A Cruz Vermelha estima em mais de US$ 30 milhões os custos da recuperação total das áreas afetadas, que deve levar anos. O estado é castigado por seguidas catástrofes – além do Katrina, também enfrentou o imenso vazamento de petróleo no Golfo do México, em 2010.

Vista aérea de um bairro da cidade de Sorrento, Louisiana, em 17 de agosto de 2016. Jeffrey Dubinsky/Handout via Reuters

Já os incêndios florestais na Califórnia são responsáveis pelo desalojamento de 83 mil pessoas no sul do estado mais rico dos EUA. As chamas começaram na terça-feira e, até agora, já queimaram mais de 10,3 mil hectares.

Mais de 4 mil bombeiros combatem o fogo, mas só conseguiram controlar 4% do incêndio. O tempo está extremamente seco e a imensidão de galhos ressecados funciona como um poderoso combustível.

Richard Rossi e o bisneto de 4 anos tiveram a casa inundada em St. Amant, Louisiana. REUTERS/Jonathan Bachman

Fraco envolvimento de candidatos

A resposta dos candidatos à presidência, Hillary Clinton e Donald Trump, às tragédias tem ficado aquém do esperado. Os dois foram duramente criticados por terem reagido tardiamente e de maneira comedida às calamidades públicas.

Hillary usou as redes sociais para pedir que os cidadãos ajudem a Cruz Vermelha nos trabalhos de assistência aos desalojados. Foi o seu único comentário - e Trump, nem isso. A imprensa acusa os candidatos de não darem a dimensão necessária a uma enchente de proporções históricas nos EUA, ainda que por motivos bem diversos.

Problema recorrente na política americana

A resposta ao furacão Katrina foi um dos momentos mais vergonhosos do governo George W.Bush, acusado de tratar como cidadãos de segunda classe uma população formada majoritariamente por afro-americanos e pobres. Os democratas martelaram - como se sabe, com ótimos resultados - no descaso criminoso da administração republicana nas eleições de 2008. Só que agora o presidente, que não interrompeu suas férias na praia para visitar a Louisiana, é o mesmo Barack Obama vitorioso de oito anos atrás. O governador do estado desta vez também é democrata, deixando Hillary sem a possibilidade de criticar a resposta oficial.

Já para Trump, o problema se chama Sandy, o nome do furacão que foi especialmente danoso para Nova Jersey e Nova York, uma semana antes das eleições de 2012. Enquanto o presidente Obama, na época disputando a reeleição, deu todo o apoio às vítimas, o então candidato republicano, Mitt Romney, foi cobrado por ter defendido, durante as primárias, duros cortes de verbas públicas para a FEMA, o equivalente à Defesa Civil nos EUA, na linha de quanto menos governo melhor, defendida pelos republicanos.

Trump foca no eleitorado de extrema-direita

Como a equipe econômica de Trump segue a mesma receita, não seria difícil colar no bilionário o rótulo usado contra Romney. Mudo em relação às tragédias que afetam dois estados de pouca importância no tabuleiro político nacional – há poucas dúvidas de que a Califórnia dará seus votos a Hillary e a Louisiana, a Trump –, o candidato preferiu usar a noite de quarta-feira (17) para desafiar uma vez mais a cúpula do Partido Republicano.

O bilionário anunciou a contratação de Stephen Bannon, do website ultraconservador Breitbart News, uma espécie de tabloide digital político, como novo comandante de sua campanha, que vai de mal a pior. Com isso, ele quer mandar um recado claro: irá radicalizar ainda mais, deixando Hillary falando sozinha para os moderados.

Para analistas, a aposta em uma mensagem de autenticidade demonstra, no entanto, o desespero de Trump, que quer garantir pelo menos o voto da ultradireita. Se as eleições fossem hoje, de acordo com o modelo estatístico usado pelos especialistas do “New York Times”, um dos mais respeitados aqui nos EUA, Hillary teria 87% de chances de vencer, contra 13% de Trump. Ou seja, o risco de ela sair derrotada é o mesmo de um jogador experiente perder um gol feito, sem goleiro, dentro da área. Para Trump, no momento, essa é a tragédia que importa.
 

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