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Haiti Furacão Matthew Catástrofes naturais

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Haiti vive em um estado de emergência permanente, diz brasileiro que mora no país

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Em Jérémie, cidade no sul do Haiti, moradores lavam suas roupas em poças d'água. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Pela segunda vez em seis anos, as atenções do mundo inteiro se voltaram ao Haiti. Em 2010, um terremoto deixou mais de 300 mil mortos no país. Na semana passada, um furacão devastou a região sul e o balanço de vítimas ultrapassa, até o momento, mil mortos. No entanto, para um ambientalista brasileiro que vive na capital Porto Príncipe há oito anos, "o estado de emergência é permanente, não apenas em períodos de catástrofe".


"A situação no Haiti só chama atenção quando tragédias acontecem", diz o coordenador de Ambiente da Ong Viva Rio, o brasileiro Valmir Fachini. Segundo ele, o terremoto de 2010 e o furacão Matthew, que passou pelo país na semana passada, atraíram os olhares da comunidade internacional, mas os haitianos vivem uma situação cotidiana de necessidade extrema. "Pobreza, fome, falta de saneamento básico, graves problemas de saúde, desemprego - 80% da população, por exemplo, não tem trabalho -, deixam o país neste estado", explica.

A ocorrência de uma catástrofe ambiental pela segunda vez em menos de uma década, castiga ainda mais a população, ressalta o ambientalista. A principal preocupação no momento, segundo Fachini, são os cuidados com a saúde dos haitianos, já que o país enfrenta uma grande dificuldade no controle de doenças de circulação hídrica, como o cólera. Cerca de 150 casos suspeitos já foram registrados nos últimos dias.

"Não há coleta regular de lixo ou saneamento básico. A maioria das pessoas não tem vaso sanitário em casa", salienta. Para ele, o problema é urgente e precisa ser trabalhado em campanhas futuras. "Ter acesso a um banheiro privado é algo que não existe para todos no Haiti, e que é uma questão de dignidade. Apenas as pessoas que recebem uma renda melhor possuem um vaso sanitário em casa. A maior parte da população, que é pobre, usa banheiros públicos. As crianças fazem suas necessidades em qualquer lugar. Tudo isso facilita a transmissão de doenças e se agrava depois da passagem do furacão", diz.

Distribuição de ajuda humanitária

Fachini ressalta que, neste momento, a ajuda da comunidade internacional, Ongs e voluntários é efetiva, mas precisa ser melhor organizada para chegar aos locais mais atingidos, especialmente à região sul do país. "Precisamos realizar esse trabalho de limpeza e reconstruir as casas para que as pessoas possam voltar às suas residências e continuar suas vidas, além, claro, de distribuir água, alimentos e remédios."

A questão da distribuição das ajudas, aliás, também é complexa, conta Fachini. “Já vivemos esse problema durante o terremoto. A ajuda chega e, se não temos as equipes prontas para descarregar os contêineres, organizar e armazenar o material, para depois fazer a distribuição, o acesso da população a essa ajuda é muito difícil."

Ele relembra que, após o terremoto, em 2010, a ajuda financeira que a Viva Rio recebeu dos brasileiros foi fundamental. Na época, Fachini coordenou uma equipe de 300 pessoas que abria valas para construir banheiros "emergenciais". "Não tínhamos nem tempo de terminar a instalação e as pessoas já estavam utilizando os vasos sanitários provisórios", conta.

Por isso, enfatiza, a ajuda financeira é essencial. "Não há voluntários suficientes para todos os locais atingidos. E não podemos imaginar que os haitianos vão querer se engajar nessas atividades gratuitamente. Para que o trabalho seja efetivo, eles também precisam ser remunerados."

Brasileiros se mobilizam pelo Haiti

A exemplo do que realizou em 2010, a Viva Rio organiza neste momento uma campanha de arrecadamento de doações. A participação pode ser feita no site da instituição.

De acordo com o diretor executivo da Ong, Rubem César Fernandes, o Brasil se sensibilizou com a passagem do furacão e está registrando uma boa participação nas campanhas de ajuda humanitária. "Notamos que há uma simpatia muito grande dos brasileiros pelo Haiti", diz.

Fernandes cita como exemplo um outro projeto da Viva Rio, Pérolas Negras, que incentiva a prática do futebol por adolescentes haitianos. Muitos dos garotos são levados ao Rio de Janeiro pela iniciativa para entrar no mercado profissional de futebol. "É impressionante como a população recebe bem esses meninos. Há uma recepção muito positiva", comemora.

Action Aid realiza campanha em 44 países

A Ong internacional Action Aid, que tem escritório no Brasil, também realiza uma campanha nos 44 países onde atua para arrecadação de fundos em prol do Haiti, onde desenvolve projetos desde 1997. Segundo a gestora de captação da instituição, Katia Gama, as doações são utilizadas para comprar água potável, leite, biscoito, sabão e baldes com pastilha de cloro.

Os brasileiros podem doar a partir valores a partir de R$ 35 no site da Ong. "Para você ter uma ideia, com dez doações de R$ 35, conseguimos fornecer água potável para mais de 1.250 pessoas", ressalta. As doações são repassadas diretamente ao escritório da Action Aid no Haiti.

Segundo Gama, a mobilização dos brasileiros tem sido positiva. A campanha da Ong começou na última quinta-feira (6) e, até o momento, mais de mil pessoas já participaram. "Pedimos para que as pessoas continuem mobilizadas porque, apesar do valor arrecadado ser significativo, ele ainda não é suficiente para ajudar todos os que foram afetados pelo furacão", sublinha.

Além desta iniciativa, a Action Aid também tem um projeto em que 900 doadores brasileiros apoiam crianças haitianas. Muitos desses menores vivem na região mais afetada pelo Matthew. De acordo com a gestora, membros da instituição enviados ao país após a passagem do furacão estão acompanhando de perto as essas crianças. “Felizmente, todas estão vivas, mas muitas tiveram suas casas destruídas pelo fenômeno”, lamenta.