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EUA terão crise com Hillary ou Trump na presidência, dizem analistas

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Donald Trump e Hillary Clinton disputam a presidência dos Estados Unidos. REUTERS

O fim da corrida presidencial definirá um novo nome para a Casa Branca, mas deixará um país fraturado por uma profunda divisão política que levará um bom tempo para ser superada. Esta é uma opinião de diversos analistas políticos nos Estados Unidos ouvidos pela RFI Brasil.


A escolha da democrata Hillary Clinton ou do republicano Donald Trump na votação desta terça-feira (8) põe fim a uma campanha eleitoral violenta e atípica para os padrões americanos. A definição entre dois candidatos com forte rejeição entre o eleitorado também expressa mudanças que ocorreram no país e também dentro do Partido Republicano, de acordo com os especialistas.

“Os dois candidatos principais não são bem aceitos pelos eleitores em geral. Acho que vai ter aquele período de (refletir) sobre o processo que nos levou a essa situação de ter esses dois candidatos”, diz o cientista político Gamaliel Perruci, do Marrieta College, de Ohio.

Para o professor analista político Riordan Roett, da Universidade John Hopkins, em Washington, a candidatura de Donald Trump é resultado de uma crise em que se encontram os Estados Unidos e o Partido Republicano. “Há muito tempo o país está dividido e há pelo menos 15 anos o Partido Republicano está jogando muito, muito sujo. O resultado foi Trump”, argumenta.

A opção do magnata de Nova York, de 70 anos, como candidato do Partido Republicano, sinalizou uma mudança no interior da formação política conservadora e no descontentamento dos partidários com o “establishment político”, na opinião do professor de Comunicação da Universidade de Alabama em Birmingham, Eduardo Neiva. Segundo ele, a insatisfação se consolidou a partir da eleição presidencial de 2008.

“Desde a disputa entre (Barack) Obama e (John) McCain, há um descontentamento dos eleitores com as elites dos partidos. Por isso, Trump sempre diz que as eleições são fraudadas, pois elas são encaminhadas por grupos dentro do partido”, analisa.

No entanto, observa Neiva, o fenômeno Trump expressa também uma mudança na própria sociedade americana: “A demografia americana mudou, pela imigração. O partido Republicano é hoje um partido agrário, de pessoas sem educação universitária, essa é sua força e sua base. A elite continua educada e urbana. Os democratas são o contrário, de profissionais e predominantemente do meio urbano. O país está dividido em sua estrutura. É triste ver que um lado não entende o outro”, afirma.“Porque o Trump sobe? Porque ele consegue veicular uma série de queixas dessa base rural, e de maneira sincera”, continua.

O analista Gamaliel Perruci traz outro questionamento sobre a irritação evidenciada pelos americanos no atual processo. “Existe uma raiva por parte dos eleitores, principalmente sem escolaridade, e a questão é saber como lidar com essa raiva e como o próprio sistema político vai poder encarar essas divisões nos planos educativo e racial”, observa.

Votos das minorias

A polarização observada na corrida à sucessão do democrata Barack Obama deixou em evidência a importância dos votos de algumas minorias, que são alvos dos dois partidos. “O voto latino e dos afro-americanos tem aumentado e o Partido Democrata tem atraído esses grupos”, observa Perruci.

Hillary Clinton durante campanha em Cleveland, Ohio, em 6 de novembro de 2016. REUTERS/Brian Snyder

“O plano do Partido Republicano era desenvolver uma plataforma mais extensiva para acolher esses novos grupos. Mas o que aconteceu foi o oposto. Não por causa da falta de interesse do Partido Republicano, mas por causa de um grupo dentro do partido que desenvolveu uma política mais agressiva que tomou a vantagem eleitoral. Foi um grupo mais ativo dentro do partido”, explica, em referência ao núcleo que apoiou Trump.

O candidato atraiu a ira de muitos latinos ao se referir a mexicanos como “estupradores” e com seu projeto de expulsar imigrantes em situação ilegal durante seu mandato.Na Flórida, onde uma forte comunidade cubana tem um histórico de apoio aos republicanos, existe a expectativa desse voto migrar para a candidata democrata.

“Os latinos americanos podem representar uma mudança muito importante nessas eleições. Eles deram um apoio fundamental para Barack Obama e o Partido Democrata espera o mesmo nível de apoio em favor de Hillary Clinton nas urnas”, afirma o cientista Riordan Roett.

Vitória de Clinton pode levar a uma crise institucional

Os analistas ouvidos pela RFI trabalham principalmente com a hipótese das urnas confirmarem as sondagens feitas até a véspera da eleição, que apontaram a democrata como favorita. Se eleita, Hillary Clinton, de 69 anos, vai depender também da margem de manobra com os futuros congressistas, já que os eleitores irão também renovar a Câmara dos Deputados e parte do Senado. A perspectiva de Hillary enfrentar muita dificuldade se os republicanos garantirem maioria no Congresso, como aconteceu durante o segundo mandato de Barack Obama, não é descartada.

“O que eu mais temo é uma crise institucional com uma vitória de Clinton e uma dificuldade com o partido Republicano no Congresso. Haverá uma batalha muito mais pesada entre esses dois lados, que não daria oportunidade para Hillary Clinton governar durante os próximos quatro anos, se ela vencer”, avalia Gamaliel Perruci.

O mesmo cenário enfrentado por Obama durante parte de seu mandato, com a oposição no Congresso, é analisado pelo professor Eduardo Neiva. “Se Hillary Clinton for eleita, a governabilidade vai ser muito complicada. Ela deverá governar como Obama governou. Ele não tinha opções. Ela deve fazer o mesmo, mas é boa em trabalhar com pessoas da oposição. Ela tem experiência. Se ela conseguir, vai ser fundamental. Mas vai haver uma crise de governabilidade, já dita explicitamente”, diz.

O candidato republicano Donald Trump em um evento de campanha na Carolina do Norte. REUTERS/Chris Keane

A hipótese de uma surpresa nas urnas, com a vitória de Trump, gera um clima de desconfiança em relação ao rumo a ser adotado pelo país. “Se Trump for eleito vai haver crise porque ele prometeu ‘apagar’ tudo que foi feito por Obama, como o sistema de saúde e as relações internacionais, tudo. Estamos caminhando para um problema sério, o país caminha direto contra a parede”, opina Neiva.

Exercício para a democracia

Independentemente do resultado das urnas, o cientista político Gamaliel Perruci considera que um dos grandes desafios da próxima presidência dos Estados Unidos será o de reunificar o país depois de uma campanha traumática.

“É uma nova etapa do desenvolvimento democrático norte-americano. Antes, era um processo (liderado) pelos homens brancos. Agora o grande desafio para a democracia americana é desenvolver nessa nova etapa uma democracia que seja para todos. E não só a nível educativo, mas para homens, mulheres e raças. Eu vejo como uma oportunidade que o próximo presidente terá que desenvolver”, observa.