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Após morte de Fidel, Cuba deve avançar nas reformas econômicas, avalia pesquisador

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Jorge Duany, diretor do Instituto Cubano de Pesquisa da Universidade Internacional da Flórida Divulgação

Após a morte de Fidel Castro, na última sexta-feira (25) aos 90 anos, Cuba entra em uma nova era. Apesar de ter deixado a presidência em 2008 devido a problemas de saúde e entregue o cargo ao irmão Raúl Castro, Fidel mantinha intacta a sua influência na esfera do poder.


Em entrevista à RFI Brasil, o professor cubano-americano Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Cuba da Universidade Internacional da Flórida, fez uma avaliação da ilha pós-Fidel.

"Há sinais de que há pelo menos duas facções no governo cubano. O fato de Raúl ter dito, mesmo brincando, no último congresso do partido comunista que, na verdade, havia dois partidos, o dele e o de Fidel, mostra algumas das possibilidades para o futuro. Fidel representava a política ortodoxa e linha dura do socialismo", diz.

Com a morte de Fidel, "Raúl pode se sentir mais livre para continuar com as reformas econômicas, como a autorização de auto-emprego, o estímulo aos investimentos estrangeiros, a abertura da economia para o turismo norte-americano e a reaproximação com os Estados Unidos".

Segundo ele, não se sabe como essa disputa de ideologias no seio da elite que está no poder vai acabar. "Mas eu acho que uma hipótese provável é que o lado mais reformista e moderno vai ter mais espaço para agir."

Avanços na economia

Duany, que é doutor em estudos latino-americanos pela Universidade da Califórnia, lembra que os avanços na economia e na sociedade já acontecem há cerca de 10 anos, desde que Raúl assumiu o poder.

"A principal mudança foi a abertura para a iniciativa privada. Mas, apesar disso, essas empresas ainda são altamente taxadas pelo governo e controladas por vários tipos de restrições legais e financeiras. A tendência é que surja uma economia mais misturada ao capitalismo."

Porém, continua Duany, no campo político não houve grandes transformações na estrutura do poder. "Novamente falando do congresso do partido comunista deste ano, não houve uma grande mudança nos quadros, as mesmas pessoas foram renomeadas."

Raúl Castro anunciou que deixará o poder em 2018. Para Duany, esse é o ano-chave para saber se "haverá alguma grande mudança nos níveis mais altos do governo".

Donald Trump

A eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos é, segundo Duany, uma ameaça aos avanços de reaproximação com Cuba, realizados durante o segundo mandato de Barack Obama. "Trump tem a intenção de reverter todas as ordens executivas de Obama sobre o tema, mas ainda não sabemos quais seriam revertidas nem como ou quando", afirma.

Duany lembra que, durante a campanha, Trump ameaçou fechar a embaixada americana em Havana e voltar à situação de antes de dezembro de 2014, quando começou a reaproximação entre os dois países. "Acho que Trump não nomearia um embaixador para Cuba, já que isso dificultaria colocar novamente Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo."

A reação de Trump após a morte de Fidel, chamando-o de "ditator brutal", não foi positiva para as relações diplomáticas. "A minha previsão é que as relações entre os dois países voltarão a ser tensas e cheias de confrontos, como eram antes de Obama."

Embargo econômico

O fim do embargo econômico imposto a Cuba não deve acontecer em breve, segundo o pesquisador. "A morte de Fidel poderia ser um fator de aceleração do processo, porém eu revisei recentemente a legislação atual, e ela exige muitos requisitos para levantar o embargo. Entre eles estão a realização de eleições livres, a autorização de múltiplos partidos, respeito aos direitos humanos, libertação de presos políticos e que Fidel e Raúl não estejam mais no poder. Essas condições tornam difícil o fim do bloqueio."

Uma opção, afirma Duany, seria a revisão da lei no Congresso norte-americano. "Mas isso não será possível com o controle dos republicanos."

Outra mudança improvável, pelo menos a curto prazo, seria a realização de eleições livres em Cuba. "Não parece que haverá uma reforma constitucional que permita que outros partidos disputem a presidência. Mas há debates sobre concessões à oposição para concorrer a cargos menores, apesar de que não houve nenhuma declaração pública a respeito", analisa Duany, que já atuou como professor convidado em diversas universidades norte-americanas, como Harvard, Connecticut, Wisconsin, Flórida, Michigan, Pensilvânia e a City University de Nova York.