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Assassinatos de jornalistas pelo tráfico aumentam no México

Na última década, a violência no México ganhou manchetes em todo o mundo por causa dos números impressionantes: 350 mil famílias foram obrigadas a deixar suas casas para sair da linha de tiro entre exército e traficantes de drogas, 26 mil pessoas desapareceram sem deixar rastro e 200 mil assassinatos foram registrados no país.

Gustavo Poloni, correspondente da RFI no México

Até meados de maio, seis jornalistas tinham sido assassinados no país por causa de reportagens sobre tráfico de drogas ou corrupção no governo. O que preocupa no caso do México é que 2016 já havia sido um ano especialmente violento, quando 11 jornalistas foram assassinados – ou 14% de todos os jornalistas mortos no mundo.

De 2000 para cá, foram mortos 106 profissionais de imprensa. Destes, 33 apenas no mandato do atual presidente, Enrique Peña Nieto, que assumiu há apenas cinco anos. É mais de um assassinato a cada dois meses. Essas mortes são a parte mais visível de um problema que é muito mais profundo: a tentativa de intimidar os meios de comunicação mexicanos. Ao todo, 24 jornalistas estão desaparecidos no país.

Nos últimos sete anos, o órgão do governo federal que lida com esse tipo de problema recebeu quase 800 denúncias de casos de agressão contra jornalistas. Num dos mais recentes, sete profissionais da imprensa de veículos como La Jornada, Vice News, Hispano Post e Bajo Palabra voltavam de uma cobertura de uma ação policial no estado de Guerrero quando os dois carros em que viajavam foram atacados por cerca de 100 homens fortemente armados.

Os jornalistas foram ameaçados de morte e tiveram seus equipamentos e anotações roubados antes de serem liberados pelos criminosos. Isso tudo faz do México o terceiro país mais perigoso do mundo para jornalistas, atrás apenas da Síria e do Afeganistão – dois países considerados zonas de guerra. De acordo com a Derecho a Informar, organização que tem como objetivo chamar atenção para o problema enfrentado pelos jornalistas mexicanos, a violência teve início em 2006, quando o então presidente Felipe Calderón se curvou à pressão dos Estados Unidos e declarou guerra contra o narcotráfico.

De repente, os jornalistas se viram em meio a um conflito sangrento, que na última década fez com que 350 mil famílias se mudassem por causa da violência, resultou no desaparecimento de 26 mil pessoas e deixou cerca de 200 mil mortos – aumento de mais de 2.000% nos casos de assassinatos em todo o país. A maior parte dos jornalistas destacados para contar as histórias dessa guerra se encontrava em cidades pequenas do interior e não tinha a menor ideia de como cobri-la. Nas cidades onde trabalham esses jornalistas, todo mundo, incluindo os criminosos, sabe onde eles moram, conhece as suas famílias. Por isso os assassinatos são mais comuns fora da Cidade do México, a capital federal. O estado mais perigoso para os professionais de imprensa é Veracruz, no leste do país.

Jornalistas também são alvos de políticos

No início de abril, a Artículo 19, uma ONG inglesa fundada há 30 anos para lutar pela liberdade de expressão e que tem escritório aqui no México, divulgou um estudo de 224 páginas sobre a situação dos jornalistas no país. Intitulado “Liberdades em resistência”, o estudo conta que foram registrados 426 casos de agressão contra a imprensa no ano passado. Destes, mais de 60% (ou 257 casos), foram cometidos por funcionários públicos ou integrantes de partidos políticos.

Um dos casos mais conhecidos aconteceu há pouco menos de dois anos, quando um fotógrafo foi assassinado aqui na Cidade do México. Rubén Espinosa era capitalino, como são conhecidas as pessoas nascidas na capital federal, e se mudou para Xalapa, no estado de Veracruz. Lá, trabalhou para o governo Javier Duarte, mas acabou se desligando da vida pública porque era um crítico muito forte da violência estatal contra os jornalistas. Logo virou inimigo do seu ex-chefe. Certa vez, enquanto fotografava um protesto de estudantes por causa da morte de mais um jornalista no estado, foi agredido pela polícia e ouviu de um dos agentes: “para de tirar fotos ou você também vai acabar morto”.

Com medo, ele deixou a cidade e voltou para o Distrito Federal, onde passou a denunciar as ameaças que recebia do governo de Veracruz e o silêncio por parte de grande parte da imprensa, que segundo ele fazia vista grossa para o problema. Rubén Espinosa foi assassinado no dia 31 de julho de 2015 e seu caso nunca foi solucionado pela polícia. Ao governo mexicano, não interessa que a imprensa tenha poder, que um jornalista faça matérias sobre assuntos como corrupção, relação do Estado com criminosos, assassinatos por brigas de poder. E muitas vezes os donos dos meios de comunicação não se interessam pelo assunto porque recebem dinheiro para se calarem”.

Ou seja, o jornalista mexicano não tem para onde correr. De um lado estão os traficantes de drogas, responsáveis por grande parte da violência que transformou o México num dos países mais perigosos do mundo. Do outro, o governo está corrompido e muitas vezes toma decisões de acordo com os interesses dos criminosos.

Luta pelo fim da impunidade

Depois do assassinato de Javier Valdez Cárdenas, um experiente jornalista de 50 anos que dedicou grande parte da carreira à cobertura sobre o tráfico de drogas do estado de Sinaloa, onde se encontra o mais poderoso cartel de drogas do mundo, o presidente Peña Nieto foi mais enérgico do que o costume. Em sua conta no Twitter, ele mandou condolências para a família e em pronunciamentos anunciou um novo programa para proteger jornalistas. Prometeu que o governo federal vai atuar com firmeza e determinação para prender e punir os responsáveis.

As promessas, no entanto, foram recebidas com ceticismo pelos jornalistas mexicanos. E na realidade, esse programa de proteção ao jornalista já existe, mas que na prática nunca funcionou. E os números mostram que as autoridades estão muito longe de cumprir a promessa de prender e punir os responsáveis pelos crimes. Absolutamente nenhuma pessoa foi presa por causa das mortes de 106 profissionais de imprensa assassinados desde 2000. E essa impunidade faz muitos jornalistas se perguntarem quem será a próxima vítima dessa guerra.

Em resposta às declarações do presidente, Balbina Flores, representante da ONG Repórteres Sem Fronteiras no México, disse que espera que as promessas sejam seguidas por ações efetivas. As demandas dos jornalistas são: criação de uma estratégia para prevenir e responder com força aos ataques contra jornalistas; humildade para assumir que não sabe como lidar com o problema e pedir ajuda a organizações e especialistas estrangeiros que tenham expertise em investigar abusos dessa natureza; e, mais importante do que tudo, acabar com a impunidade.

Pode parecer simplista, mas um dos principais motivos é porque se trata da forma que encontraram para levar sustento às suas famílias. Mas tem outro fator muito importante nessa equação: a paixão pelo jornalismo. Muitos decidem contar histórias que ficariam perdidas no banho de sangue. O Javier Valdez costumava dizer que tinha de seguir contando as histórias para mostrar o que é o inferno que se transformou o estado de Sinaloa. Infelizmente acabou morrendo antes de terminar esse trabalho.

Outros afirmam que a denúncia, o relato do sofrimento e a verdade são as únicas formas de mudar alguma coisa no país. Para eles, é preciso dar nomes aos mortos para, quem sabe, mudar alguma coisa para os seus filhos. Mas a condição de trabalho do jornalista no México é muito, muito ruim. Os salários são baixos e falta plano de saúde para os profissionais. Junte a isso a falta de equipamentos de proteção pessoal, como coletes à prova de bala e capacetes, e a ausência de protocolos de segurança. Eles estão literalmente entregues à própria sorte.

Essa é uma das únicas áreas em que jornalistas e governo federal parecem falar a mesma língua no México. Na esteira do último assassinato, o presidente Peña Nieto disse que “cada crime contra um jornalista é um atentado contra a liberdade de expressão e de imprensa, e também contra a cidadania”. Em depoimento à RFI Brasil, um um jornalista mexicano declaroy que “quando se mata um jornalista, morre também uma parte da sociedade. O jornalista é o porta-voz da informação e protege o direito das pessoas de ser informado”.

 

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