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Metrô de NY está sucateado e usuários vão “penar” neste verão

Um trem desgovernado. É assim que os próprios funcionários da secretaria estadual de transportes apelidaram o serviço de metrô de Nova York. Os passageiros reclamam do alto nível de sucateamento do transporte público na cidade que provoca atrasos e panes frequentes. Autoridades estaduais, que controlam o serviço, avisam que os nova-iorquinos devem se preparar para “penar” neste verão. E o que é mais grave, o metrô, um dos símbolos de Nova York, é apenas o exemplo mais gritante dos problemas graves de infraestrutura na maior potência do planeta.

Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

A situação no metrô de Nova York saiu mesmo dos trilhos! O trocadilho, infelizmente, é perfeito para definir o que acontece hoje no sistema público de transportes da cidade. No começo do ano, o cartão semanal do metrô aumentou de US$ 31 para US$ 32, ou R$ 102 para R$ 105, pela cotação desta terça-feira (27). Cada viagem de metrô sai hoje a US$ 2,75, ou R$ 9. Preços salgados que eram justificados pela extensão das linhas, a assiduidade e o funcionamento 24 horas nos sete dias da semana. O problema é que tudo isso está deixando de ser verdade.

Cerca de 6 milhões de pessoas circulam todos os dias pelas mais de 400 estações de metrô espalhadas por Manhattan, Brooklyn, Queens e Bronx, e as reclamações de atrasos constantes, panes são recorrentes. Na semana passada, depois de um atraso de 25 minutos nos trens da linha F, com o ar-condicionado falho em temperaturas altas de verão, alguns passageiros desmaiaram, enquanto outros, mais exaltados, andaram perigosamente pelas linhas entre duas estações para poder chegar a seus locais de trabalho. Depois disso, a reação do comitê-executivo da agência reguladora de transporte público da região metropolitana de Nova York foi a de reconhecer o caos no setor. O governo estadual classificou a crise como emergencial e fez um mea-culpa sobre a concentração de fundos em projetos específicos, que acabaram deixando em segundo plano a manutenção das linhas e a renovação dos trens.

Projetos de extensão

Nos últimos anos, US$ 1,7 bilhão foram direcionados para a extensão do metrô da Segunda Avenida, com três novas estações inauguradas em janeiro no bairro nobre do Upper East Side, em Manhattan. Outros US$ 477 milhões foram direcionados para a recuperação do túnel entre o Brooklyn e Manhattan por onde passam os trens da linha L, que terá de ser fechada por 15 meses, a partir de janeiro de 2019, interrompendo a principal via de transporte entre o norte do Brooklyn e o centro-sul de Manhattan. Esta linha é usada diariamente por mais de 400 mil pessoas, e liga a área cada vez mais valorizada de Williamsburg, no Brooklyn, ao Village, Union Square e Chelsea.

Estas iniciativas acabaram penalizando usuários de áreas menos nobres da metrópole, onde melhorias não foram feitas. Na reunião na secretaria de transportes na semana passada um dos conselheiros usou a seguinte imagem para explicar a situação do metrô na cidade: “é como se você quisesse construir mais quartos em uma casa que está com o teto desabando e a água invadindo o porão”. Especialistas dizem que o caos nova-iorquino é, também, um reflexo de 40 anos de parcos investimentos no setor público nos EUA.

Baixo investimento desde a era Reagan

O baixo investimento em infraestrutura nos EUA se explica, por um lado, pela tônica do Estado mínimo, enfatizada a partir da administração Reagan, nos anos 80, que viu os republicanos se oporem a mais taxação para investimentos no setor público da economia. Por outro lado, os EUA são uma federação de fato, e a força das comunidades, do poder local, é enorme.

Para se tocar uma obra pública no país é preciso, em geral, conseguir permissão e concordância dos envolvidos em nível federal, estadual e municipal, ou seja, há um enorme entrave burocrático. Por exemplo, o trem-bala que ligaria Los Angeles a São Francisco foi aprovado pela assembleia legislativa mas vetado por vereadores de duas localidades no Vale do Silício e jamais saiu do papel. Na Costa Leste, a reforma dos trilhos que diminuiria o tempo de viagem de trem de Nova York a Boston também foi barrada pelos vereadores de uma cidadezinha do estado fronteiriço de Connecticut. Eles não concordam com a alocação de verba pública federal já aprovada no Congresso, de US$ 120 bilhões, para as obras necessárias.

Em teoria, os EUA deveriam ser o mais cobiçado mercado de investimento em infraestrutura do planeta, tanto por conta das dimensões continentais do país, quanto pela segurança do retorno do montante aplicado. Hoje, o setor de construção estima que pelo menos US$ 120 trilhões poderiam ser alocados somente pelo setor privado em investimentos de infraestrutura país afora. Mas é, ironicamente, a prática da democracia direta que impede muitas vezes os projetos de seguirem adiante.

Projeto de Trump

O presidente Trump anunciou, em março, no Congresso um ambicioso projeto de recuperação da sucateada infraestrutura americana. A proposta foi batizou de “plano de reconstrução nacional”. Trata-se de um investimento de US$ 1 trilhão, durante dez anos, mas a crise política da administração republicana, com o chamado Russiangate, diminuiu o ritmo de aprovação de reformas pelo Congresso.

Trump quer acelerar o processo de aprovação de obras e diminuir a poder local de decisão mas para isso precisará contar com apoio de parte da oposição. Mas a esquerda do Partido Democrata diz que o tal plano Trump só prevê US$ 200 bilhões de investimento público, sem especificar de onde viriam os US$ 800 bilhões restantes. Os críticos dizem ainda que o projeto não deixa claro quantos empregos, ainda que temporários, tal iniciativa geraria no setor público.

Em Nova York, no fim da semana passada, o governo estadual, comandado pelos democratas, anunciou ter iniciado estudos para o investimento de US$ 2,1 bilhões em recuperações de emergência no sistema do metrô. Mas, para conter custos, também aventou a a possibilidade de fechar permanentemente linhas inteiras, o que certamente vai causar nova chiadeira entre os usuários.

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