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Com EUA “fraturado”, presidência de Trump vacila e apoio despenca

Por Alfredo Valladão

A presidência de Donald Trump é um fracasso. Praticamente todas as principais promessas do candidato não conseguem angariar os votos necessários no Congresso. A Casa Branca é um caos.

Quase todos os membros do gabinete do presidente foram despedidos ou pediram demissão. E na última semana, vários grandes empresários saíram correndo do Conselho Indústria e do Foro Político e Estratégico da presidência, obrigando Trump a dissolver as duas entidades. Steve Bannon, o ideólogo da campanha presidencial e o conselheiro mais próximo do magnata-presidente, foi obrigado a renunciar.         

O lourão da Casa Branca está despencando ainda mais nas sondagens e mandachuvas republicanos declaram publicamente que ele poderia não estar à altura do cargo, nem politicamente, nem psicologicamente. Mas a gota d’água foram os incidentes em Charlottesville na Virgínia, onde um neonazista adepto da supremacia branca atropelou e matou uma manifestante antifascista.

Trump declarou que os dois lados eram responsáveis. No dia seguinte, pressionado pelos generais do seu gabinete, ele condenou os grupos racistas e nazistas, para no dia seguinte voltar atrás e afirmar que havia gente boa e gente ruim dos dois lados. Desapareceu o último resquício de autoridade moral da presidência.

Cúmplice da extrema-direita

E esse vai-e-vem cúmplice com os piores extremistas da ultradireita racista também dividiu o país, criando um clima de enfrentamento direto sobre questões centrais da identidade americana. O perigo é tão sério que até os dois ex-presidentes Bush, pai e filho, decidiram declarar publicamente que não era possível vacilar na condenação clara dos movimentos de supremacia branca.

Por enquanto, os Estados Unidos não estão à beira da guerra civil. Mas a ameaça existe, no mínimo, de uma guerra civil verbal que pode provocar muita violência. Sobretudo que esse clima de confronto está se cristalizando em torno da retirada ou não dos monumentos aos heróis sulistas da Guerra de Secessão entre 1861 e 1865. Esse conflito – com mais 600.000 mortos – foi o mais sangrento da história americana. O Estados do Sul, escravocratas, acabaram sendo derrotados pelos Estados do Norte, abolicionistas. Mas as divisões raciais continuam envenenando a sociedade americana até hoje.

Além do mais o que estava em jogo era a escolha de um modelo social e econômico para o país. O Sul, das plantações dependentes do trabalho escravo, era uma sociedade profundamente desigual, onde um pequeno grupo dirigente podia se perpetuar no poder graças ao clientelismo, uma mão de obra servil e o monopólio das decisões políticas.

O Norte, era o campeão do trabalho livre, do desenvolvimento industrial, e sobretudo de uma sociedade meritocrática, baseada na mobilidade social e na competição. Esta história ainda está arraigada no subconsciente dos cidadãos americanos.

Nostalgia “old times”

O problema, hoje, é que a base eleitoral de Donald Trump é feita de trabalhadores brancos de setores econômicos em declínio, rurais ou periurbanos, convencidos de que estão sendo esmagados por todos os setores dinâmicos da economia e pelas cidades grandes com suas populações cosmopolitas.

O voto Trump é uma nostalgia dos velhos tempos, onde os brancos eram clara maioria. E também um sonho de acabar com a globalização, fechar as fronteiras contra a competição comercial e os imigrantes. Só que o resto do país não quer voltar para trás e sabe que o dinamismo social e econômico americano só pode se manter com uma maior integração ao resto do mundo.

América aberta ou fechada: essas duas visões são incompatíveis. Quanto mais lenha na fogueira dessa fratura, mais difícil fica evitar a violência. O establishment republicano e as grandes instituições como os militares, os serviços de segurança, o Tesouro e os grandes empresários, todos favoráveis a um país mais aberto, estão tentando enquadrar Donald Trump. Mas será que é possível? Pelo visto a alternativa será cada vez mais encontrar um jeito de encurtar o mandato do lourão ou deixar o país afundar no caos.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI

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