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Após nove meses no poder, governo Trump é um fracasso total

Por Alfredo Valladão

O presidente americano, Donald Trump, está dia a dia mais encurralado. Desta vez, é um grande júri independente, convocado pelo procurador especial que investiga a ingerência russa nas eleições americanas, que decidiu acusar formalmente membros do círculo mais próximo de Trump de colusão com Moscou. Claro, o presidente declarou que não tinha nada a ver com isso. Mas, de repente, uma investigação considerada pela Casa Branca como uma conspiração política da oposição, virou caso de justiça. E nos Estados Unidos ninguém brinca com isso, simplesmente porque não se sabe até onde os inquéritos podem chegar. 

O estouro dessa bomba relógio, que ameaça o mandato do presidente, é só o último episódio de uma série de derrotas de propostas e decretos do governo. Depois de nove meses no poder, a administração federal é um caos e o balanço político e legislativo de Trump é praticamente nulo.  

O magnata lourão conquistou a Casa Branca convencendo diferentes pedaços do eleitorado esquecidos pelas imensas transformações do modelo socioeconômico do país e enraivecidos com o chamado “lamaçal” de Washington. Territórios e pessoas que se sentem abandonados e sonham em voltar para os “bons velhos tempos” dos bons salários da velha economia industrial de massa dos anos 1950 a 1970. Tempos abençoados, quando uma próspera classe média “branca” era dominante. Um eleitorado com sede de desforra contra o modo de vida das grandes cidades cosmopolitas, o “politicamente correto” e as empresas que se globalizam e se modernizam graças as novas tecnologias. Na verdade, contra tudo que cheire a uma sociedade aberta com alta mobilidade das pessoas e das ideias. 

As jogadas de Trump

Só que o novo presidente teve que enfrentar uma contradição imediata. Como satisfazer essa “base” radicalizada sem degolar a galinha dos ovos de ouro do dinamismo econômico americano? O magnata tentou duas jogadas. A primeira foi tentar desmantelar todas as vacas sagradas da América bem sucedida, começando pelo Obamacare,  a reforma do seguro de saúde feita pelo ex-presidente Barack Obama. O problema é que o núcleo eleitoral de Trump, os trabalhadores brancos pobres das regiões em crise, são os que mais se beneficiam desta reforma. Resultado: foi impossível liquidar o Obamacare no Congresso. 

O mesmo aconteceu com a tentativa acabar com a imigração. As empresas e as autoridades estaduais, que precisam de mão de obra estrangeira, não deixaram. Para compensar, Trump saiu provocando guerras “culturais” contra jogadores de futebol que não cantam o hino nacional ou com declarações simpáticas a grupos neonazistas de supremacistas brancos. A “base” adora, mas o país se divide e se radicaliza. E Trump despenca nas sondagens. 

O outro tema utilizado foi o do protecionismo comercial para obrigar as grandes empresas americanas a repatriar suas produções e criar empregos industriais “à antiga” no país. Ilusão completa, claro. Só que se fosse possível fechar as fronteiras, as empresas que dependem de um mundo aberto iriam à falência ou teriam que automatizar rapidamente a produção.

Nos dois casos, os principais perdedores seriam os trabalhadores brancos eleitores de Trump que ficariam sem emprego. Não deu outra: a política protecionista de Trump ficou só no "gogó". E uma ampla frente empresarial saiu em campo par tentar impedir que ele acabe com o acordo de livre-comércio norte-americano.  

Reforma fiscal pode salvar governo Trump
        
Mas para salvar o mandato, o magnata ainda tem um trunfo: a reforma fiscal que agrada tanto as empresas quanto seu núcleo de eleitores que odeia impostos e uma administração federal gastadeira. O problema é que a reforma tira dos pobres para agradar os ricos e aumenta brutalmente o déficit público. Não vai ser fácil o Congresso aprovar essa aventura.

O perigo é que se não der certo, Trump pode ter a tentação de inventar uma guerra externa qualquer para restabelecer a união nacional em volta do presidente. Falta só um ano para as eleições legislativas de meio-mandato... Por enquanto, os generais de cabeça fria que enquadram o lourão conseguiram evitar esse tipo de loucura. Mas por quanto tempo ainda?

* O cientista político Alfredo Valladão publica sua coluna todas as segundas-feiras na RFI
 

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