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Prefeito opositor de Caracas chega a Madri e cita "abismo" na Venezuela

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O prefeito opositor de Caracas, Antonio Ledezma, abraça a mulher e as filhas ao desembarcar neste sábado (18) em Madri. REUTERS/Juan Medina

O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, desembarcou em Madri na manhã deste sábado (18), procedente de Bogotá, aonde chegou clandestinamente depois de burlar a prisão domiciliar. Ele estava detido desde 2015 por suposta conspiração contra o governo de Nicolás Maduro.


Ledezma, de 62 anos, foi recepcionado no aeroporto Madri Barajas pela mulher e as duas filhas do casal, que já estavam na Espanha, além de um grupo de 30 simpatizantes. Ele será recebido ainda hoje pelo primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. Será o primeiro encontro de um giro internacional que o opositor pretende fazer para dar sua visão sobre o que está ocorrendo em seu país. "Não é que a Venezuela esteja a bordo do abismo; o país está no abismo", destacou.

Segundo reportagem do jornal espanhol El País, depois de passar mais de 1.000 dias preso, Ledezma teria decidido partir para denunciar "os desmandos" de Maduro. "Na viagem que fiz de carreta até a fronteira colombiana, vi mulheres e crianças procurando comida no lixo. É um crime o que acontece em um dos países petrolíferos mais ricos do mundo", explicou.

"Deixei a Venezuela com o coração partido, mas acredito que serei mais útil ao país dessa forma", disse o prefeito. "Espero encarnar a esperança de todos os venezuelanos de sair desta ditadura", acrescentou, acusando o governo Maduro de "conluio com traficantes de drogas".

Ledezma ainda incitou a oposição a fazer uma autocrítica para superar incoerências. Sem citar nomes, ele criticou a atitude de quatro governadores eleitos em outubro que aceitaram tomar posse diante da Assembleia Constituinte pró-Maduro.

Travessia clandestina teria contado com ajuda de militares

Um dos opositores mais emblemáticos junto com Leopoldo López, também em prisão domiciliar, Ledezma contou, ainda na Colômbia, que conseguiu fugir com a ajuda de militares venezuelanos. "Foi uma travessia de filme passar por mais de 29 postos entre a Guarda Nacional e a polícia do governo", revelou a jornalistas colombianos sem revelar detalhes. Ele chegou a Bogotá por volta do meio-dia de sexta-feira (17).

A Colômbia recebeu nos últimos meses vários juízes venezuelanos destituídos e a ex-procuradora-geral Luisa Ortega. Ela chegou à capital colombiana em agosto, alegando perseguição política. "Minha voz se une ao coro de vozes de venezuelanos que pediram auxílio da Colômbia", afirmou Ledezma. O prefeito de Caracas disse ter falado por telefone com o presidente Juan Manuel Santos, que tem sido um dos mais críticos na região contra a "ditadura" de Maduro.

Ledezma afirma que decidiu fugir depois de ser informado por militares e membros da Inteligência de que havia um suposto "plano" do governo contra ele.  Em Caracas, várias patrulhas do serviço de Inteligência estavam na frente de sua casa, no leste da cidade. "Não quero ser refém de uma tirania, que me usem para dobrar a oposição", alegou. Ele garantiu não ter consultado sua esposa e suas filhas e não ter dado pistas claras sobre seus próximos passos.

Ao desembarcar em Madri, Ledezma reafirmou que irá iniciar uma peregrinação pelo mundo para denunciar o regime "tirano" na Venezuela e a situação dos presos políticos.

"Referência moral da Venezuela", diz secretário-geral da OEA

Acusado de fazer parte de uma suposta conspiração contra Maduro, o prefeito foi detido em 19 de fevereiro de 2015. Dois meses depois, chegou a ser colocado em prisão domiciliar por questões de saúde. Em agosto, porém, foi levado para a prisão militar Ramo Verde, nos arredores de Caracas, depois que o Tribunal Supremo de Justiça revogou essa condição, acusando-o de planejar fugir. Ledezma voltou para casa alguns dias mais tarde. Tanto ele quanto López questionam Maduro sem trégua e rejeitam a Assembleia Constituinte de plenos poderes em vigor na Venezuela.

Em sua fuga, o prefeito de Caracas voltou a criticar o presidente e pediu sua saída do poder. "É hora de sair de cena e permitir um governo de transição. Maduro não pode continuar torturando o povo da Venezuela. Maduro está matando o povo da Venezuela de fome", insistiu. A também integrante da oposição María Corina Machado alegou que Ledezma corria risco de vida no país.

Em uma primeira reação, Maduro pediu ontem às autoridades espanholas que não "devolvam" o prefeito. "Hoje escapou Antonio Ledezma, o 'vampiro' voando livre pelo mundo. Foi protegido para a Espanha para viver a grande vida, para ir tomar vinho na Gran Vía. Que não nos devolvam", afirmou Maduro, em um ato em Caracas.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, saudou a fuga do prefeito. "Minha saudação a Antonio Ledezma, referência moral da #Venezuela, agora livre para liderar a luta do exílio para a instauração do sistema democrático em seu país", tuitou Almagro.