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Chile Eleição parlamentar

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Voto da esquerda radical deverá decidir eleições presidenciais no Chile

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O candidato conservador, Sebastian Piñera (esq.), e o socialista Alejandro Guillier durante debate presidencial na TV chilena, em 11 de dezembro de 2017. REUTERS/Ivan Alvarado

O avanço da extrema-esquerda no primeiro turno redistribui as cartas na corrida presidencial no Chile, que acontece neste domingo (17). O candidato conservador Sebastian Piñera, antes dado como grande favorito, terá que trabalhar duro para conseguir vencer, segundo analistas.


Com informações da AFP e de Yasna Mussa, correspondente da RFI no Chile

Como esperado, o ex-chefe de Estado chileno chegou no domingo (10) à frente (com 36,6% dos votos) do candidato socialista no primeiro turno, o jornalista Alejandro Guillier (22,7%). Os dois homens se enfrentarão no dia 17 de dezembro para decidir quem substituirá a presidente de esquerda, Michelle Bachelet.

O inesperado, segundo especialistas, foi a pontuação significativamente menor do que as previstas do conservador Sebastian Piñera, e, especialmente, o bom desempenho (20,2%) da candidata de extrema-esquerda, Beatriz Sanchez, 46, uma verdadeira reviravolta no pleito chileno. Amparada por seus 1,3 milhões de votos, a representante da Frente Amplio, coalizão formada por ex-líderes de manifestações de estudantes, detém a chave que pode decidir o segundo turno. Apenas 160 mil votos a separam do candidato socialista.

"Esta é a reviravolta mais importante da política chilena desde o retorno da democracia" em 1990, disse Mauricio Morales, cientista político da Universidade de Talca. "Enquanto as pesquisas apontavam apenas 13% para Beatriz Sanchez, seu bom resultado poderia significar que um número de votos maior do que o esperado poderia passar para Guillier no segundo turno", afirmou a empresa Capital Economics.

Sinal dessa incerteza, a Bolsa de Valores de Santiago despencou segunda-feira (11) de 4,09% na abertura e 5,51% no fechamento, devido ao fraco desempenho de Piñera, candidato apoiado pela comunidade empresarial.

O bilionário decepcionou os mercados durante as eleições legislativas que também foram realizadas no domingo: sua coalizão Chile Vamos não conseguiu a maioria em nenhuma das duas câmaras. Um resultado que deve abrandar a implementação de seu programa econômico, incluindo a redução de impostos corporativos e a flexibilização de regulamentos no setor de mineração, de acordo com a Capital Economics.

Liderança frágil

Antes do resultado inesperado de Beatriz Sanchez, da extrema-esquerda chilena, o empresário era dado em grande parte vencedor no segundo turno contra Guillier. Apesar da liderança, ele está longe de conseguir os 43% atribuídos a ele pelas pesquisas no primeiro turno e, ao contrário do candidato socialista, ele tem poucas reservas de votos para o futuro.

Segundo os analistas, Piñera é obrigado a recorrer ao candidato da extrema-direita, José Antonio Kast, que obteve 7,9% dos votos no primeiro turno. "Piñera recebe oito ou nove pontos menos do que o esperado e isso reforça o lado dramático e incerto do segundo turno", disse Marcelo Mella, da Universidade de Santiago. "A chave está na atitude que adotará o contingente de eleitores que apoiou Beatriz Sanchez no primeiro turno".

Após anos de luta entre esquerda e direita, surge uma terceira força no Chile: a esquerda radical. "Este é um grande evento político", disse o senador de direita, Andrés Allamand.

Famosa por seu tom direto mas amigável ao realizar entrevistas, Beatriz Sanchez, ex-jornalista, quer ser "uma ponte entre os movimentos sociais". Sua coalizão aumentou significativamente sua presença no Parlamento, subindo de três para 20 deputados e elegendo um senador.

De acordo com Capital Economics, “a Frente Amplio tem lugares suficientes para ser um incômodo no Parlamento". Na noite de domingo, Beatriz Sanches imediatamente exigiu explicações públicas dos pesquisadores, que a creditaram de 10 a 13% dos votos.

Em conjunto, os seis candidatos à esquerda reuniram 3,6 milhões de votos, contra 2,9 milhões para os dois candidatos de direita.

O eleitorado de direita: “clientelismo”

Com 36% dos votos no primeiro turno, o correspondente da RFI no Chile procurou saber quem é o eleitor da periferia que apoia o candidato liberal, que, no entanto, vive nas áreas menos favorecidas da cidade.

São pessoas como Rafael Peña Cofré, líder sindicalista, proprietário de uma pequena empresa de bordados e ativista ativo de Evolución Política, ele conta porque apoia Piñera. “Porque estamos realmente em um país estagnado. Quando começou este governo, o país começou a entrar gradualmente em decomposição, a decair, todo o setor privado se paralisou”, afirma.

Os eleitores do candidato conservador enfatizam seu perfil de empresário, de homem comum, politicamente incorreto, mas que conseguiu se tornar um dos milionários mais poderosos do país. O conceito de “gestor” esteve presente em todas as suas campanhas e conseguiu deslumbrar as aspirações do cidadão comum, mesmo se este eleitorado ganha um salário mínimo e vive em áreas de baixa qualidade de vida.

Para o doutor em sociologia e acadêmico da Universidade do Chile, Miguel Urrutia, não é novidade que existam setores populares que tenham aderência eleitoral ao que chama de propostas “regressivas e conservadoras”.

“Do meu ponto de vista, o sintoma disso é o clientelismo. Basicamente, precisamente, um relacionamento da política com outros setores que não é propriamente político, as pessoas são treinadas para avaliar os candidatos pelo que estes podem lhes entregar de forma direta e imediata e não pela política pública que eles podem fazer. De tal forma que temos uma grande parcela do povo que entende assim a política. Eles não têm ideia do que sejam as grandes transformações, eles não estão interessados”, conclui.