rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Califórnia Sequestro Tortura Adolescente Polícia Estados Unidos

Publicado em • Modificado em

Casa dos horrores: casal mantinha 13 filhos sob tortura na Califórnia

media
A casa onde os pais mantinham seus 13 filhos em cativeiro na Califórnia. REUTERS/Mike Blake

Um casal de americanos mantinha 13 filhos sequestrados, alguns deles acorrentados em seus quartos, na Califórnia. A "casa dos horrores" foi descoberta pela polícia em um povoado ao sudeste de Los Angeles, após o alerta de uma das vítimas, uma adolescente de 17 anos, que conseguiu escapar do cativeiro.


Guiada pela jovem, a polícia descobriu no local 12 irmãos, com idades entre 2 e 29 anos. Eles eram mantidos famintos e imundos, num ambiente pestilento. Alguns estavam tão magros e diminuídos que os policiais não acreditaram que eram adultos.

O casal David e Louise Turpin, de 57 e 49 anos, foi preso e denunciado por tortura, cárcere privado e por colocar os filhos em risco. As autoridades californianas fixaram, para cada um, uma fiança de US$ 9 milhões, cerca de R$ 28 milhões. Eles não souberam dar nenhuma explicação razoável sobre os motivos de manter os filhos acorrentados, declarou a polícia.

As vítimas foram alimentadas e estão recebendo tratamento adequado. Uma investigação foi aberta pelos serviços de defesa da infância da Califórnia. A casa da família fica na localidade de Perris, condado de Riverside, a duas horas de Los Angeles.

Desnutridos e acorrentados

A polícia encontrou o local no domingo (14), alertada por uma das irmãs, de 17 anos, que colocou fim ao pesadelo da frátria. Depois de fugir, ela telefonou para o número de emergência 911 da polícia usando um celular que encontrou na residência.

A adolescente, que estava "magérrima" e parecia ter apenas 10 anos, segundo a polícia, "afirmou que seus 12 irmãos e irmãs eram mantidos em cativeiro na casa por seus pais, explicando que alguns estavam acorrentados a suas camas".

A princípio, a polícia pensou que se tratava de 12 menores, "desnutridos e muito sujos", mas depois percebeu que havia sete adultos, com idades entre 18 e 29 anos. Seis das 13 vítimas (incluindo a adolescente que fugiu) eram menores, e a mais nova tinha apenas 2 anos.

Pai aparece registrado como diretor de escola

David Turpin aparece registrado no Diretório Escolar da Califórnia como diretor do colégio particular Sandcastle Day School, inaugurado em março de 2011, cujo endereço é o mesmo da residência dos Turpin. A escola teria apenas seis estudantes, com idades entre 10 e 18 anos, em graus diferentes, segundo os últimos dados do departamento estadual de educação. Segundo o Los Angeles Times, o casal vivia no local desde 2010, depois de mudar do Texas.

Os Turpin declararam falência no mesmo ano em que abriram a escola, com uma dívida acumulada de US$ 100 mil e US$ 500 mil, revelam documentos judiciais citados pelo jornal The New York Times. A publicação assinala que David Turpin trabalhava atualmente como engenheiro para o grupo de defesa Northrop Grumman, com um salário anual de US$ 140 mil, enquanto Louise aparece como dona de casa.

Uma página do Facebook sob o nome de David-Louise Turpin traz uma foto dos dois no que parece ser uma cerimônia de casamento. Ela porta um vestido branco, enquanto ele aparece de terno. O casal está rodeado por 13 crianças ou jovens. As meninas, de cabelo longo e castanho, estão com o mesmo modelo de vestido púrpura com estampado escocês, exceto uma bebê, vestida de fúcsia. Os meninos aparecem todos com o mesmo corte de cabelo de David Turpin.

O casal aparece diante de um homem vestido como Elvis Presley segurando um microfone, como nas cerimônias de casamento "kitsch" de Las Vegas. Outra foto, de abril de 2016, na mesma página do casal no Facebook, exibe David e Louise Turpin rodeados de 13 jovens, todos sorridentes, com jeans e camisetas vermelhas. Números inscritos nas camisetas parecem classificar os adolescentes pela ordem de nascimento: "thing 3" ou "thing 12" (coisa 3 ou coisa 12, em português), aparentemente em alusão ao livro "The Cat in The Hat". Em outra foto, a bebê aparece vestida com uma camiseta onde se pode ler: "Mamãe me ama".

Vizinhos não perceberam drama do cativeiro

Kimberly Milligan, vizinha dos Turpin, disse ao jornal Los Angeles Times que muitas coisas eram estranhas "naquela família": as crianças "eram muito pálidas, tinham o olhar vazio e nunca saíam para brincar, apesar de serem numerosos". "Acreditava que eles estudavam em casa", algo relativamente frequente nos Estados Unidos, acrescentou Milligan. "Sentíamos que havia algo estranho mas não queríamos pensar mal daquela gente", disse a vizinha. Agora, ela se sente terrivelmente culpada: "Como é que ninguém viu nada?"

Segundo Julio Reyes, outro vizinho da família, dois ou três adolescentes cortaram a grama da casa no ano passado e instalaram enfeites de Natal no jardim. "Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer em nossa cidade", revelou Reyes, também pai de uma adolescente. Ele declarou estar profundamente chocado com a descoberta macabra.

Sequestros que chocaram o mundo

O caso dos Turpin lembra outras histórias famosas de sequestro. Ariel Castro, motorista de ônibus desempregado, capturou e estuprou por dez anos três jovens americanas em sua casa de Cleveland. Ele foi preso em maio de 2013, denunciado por uma das vítimas, que conseguiu escapar.

Em 2009, Jaycee Dugard, de 29 anos, foi encontrada no jardim de uma casa da área de San Francisco depois de ter sido sequestrada por um casal durante 18 anos e ter dois filhos com seu sequestrador.

Na Áustria, Natascha Kampusch foi encontrada em 2006, aos 18 anos, vagando pelos arredores de Viena, depois de escapar do cativeiro onde seu raptor, um técnico em telecomunicações, a manteve presa durante oito anos. Em 2008, outra austríaca, Elisabeth Fritzl, foi libertada após uma investigação do serviço social de Amstetten. Sequestrada pelo pai, ela foi estuprada durante 24 anos e chegou a dar à luz a sete crianças de seu genitor.

* Com agências internacionais