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Papa envia "bispo 007" para averiguar casos de abuso sexual no Chile

O papa Francisco decidiu enviar ao Chile um bispo integrante da Congregação para a Doutrina da Fé para averiguar casos de abuso sexual. A decisão anunciada nesta semana visa acabar com a polêmica sobre o bispo de Osorno que perturbou a viagem de Francisco ao Chile, entre os dias 15 e 18 de janeiro.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

O papa Francisco determinou que o bispo Charles Scicluna, atualmente à frente da igreja católica de Malta, viaje a Osorno, no Chile, para ouvir testemunhas e vítimas que afirmam que o bispo Juan de la Cruz Barros Madrid, de 61 anos, acobertou casos de abuso cometidos por outro padre, Fernando Karadima, no final dos anos 80. O Vaticano já admitiu a culpa de Karadima: a pena para ele foi uma vida de reclusão e penitência. Várias vítimas acusam o bispo de Osorno de ter assistido a alguns atos de pedofilia do padre Kardima sem denunciá-los.

As investigações podem demorar e Francisco tomará uma medida somente após ler o relatório de seu enviado.

Fama de implacável

Scicluna é conhecido por ser o agente 007 da inoxidável Congregação para a Doutrina da Fé, o departamento da Santa Sé que, em poucas e simples palavras, determina o que pode e o que não pode dentro da Igreja católica. Ele foi por muitos anos promotor de justiça na congregação e tem a fama de ser implacável com os pedófilos.

Na verdade, o bispo trabalhou por dez anos na congregação quando esta era governada pelo papa emérito Bento XVI, ainda em tempos em que a maior parte dos casos de abuso sexual permanecia no limbo. Apoiado pelo cardeal Ratzinger, Scicluna defendeu novas regras, mais severas e punitivas para casos de abuso sexual dentro da igreja.

Investigação idônea?

Ao escolher o 007 do Vaticano que, em teoria, haveria de trazer provas irrefutáveis para uma possível condenação do bispo Juan de la Cruz, Francisco quer garantir uma investigação idônea após ter sido contestado no Chile. Durante sua viagem ao país latino-americano, em meados de janeiro, o bispo de Osorno participou das missas públicas celebradas pelo papa, provocando muita indignação na opinião pública chilena.

Francisco chegou a dizer que as acusações contra Juan Barros eram somente fofocas, que não havia nada de concreto contra ele. Após ter sido muito criticado por essa declaração, ele busca agora respaldo nos resultados dessas novas investigações antes de dar o seu veredicto.

Desenrolar das investigações

A praxe é que o enviado do papa chegue o mais rápido possível ao Chile. No país, ele deverá inicialmente se informar sobre o caso e analisar o contexto em que os abusos foram cometidos. Em seguida, ouvirá os envolvidos e recolherá o máximo possível de elementos que auxiliem a congregação para a Doutrina da Fé a elaborar um relatório completo que será entregue ao papa, com a devida recomendação de como Francisco deverá agir diante dos fatos.

Dentro das penalidades previstas pela igreja, o bispo Juan Barros poderá ser “convidado” a se afastar das funções clericais, se considerado culpado. Mas a decisão final, em uma monarquia absoluta, é sempre do rei.

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