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ONU teme crise humanitária com refugiados venezuelanos

Por Márcio Resende

O alto-comissário da ONU para refugiados, o italiano Filippo Grandi, chegou a Brasília para uma viagem oficial de dois dias, que termina nesta terça-feira (20). O objetivo é consultar os 36 representantes dos países da América Latina e do Caribe sobre como proteger e dar assistência aos refugiados e enfrentar as crises humanitárias. A situação dos refugiados venezuelanos na América Latina é o tema de destaque neste momento em que milhares de pessoas abandonam a Venezuela.

Vários países latino-americanos começaram a adotar medidas para ordenar o caos nas fronteiras com a Venezuela, como é o caso da Colômbia e do Brasil, que já enviaram missões militares para a região.

Muitos desses imigrantes chegam aos países sem os documentos necessários para dar entrada num processo de residência ou pedido de asilo. Alguns países, como o Peru, a Argentina e o Brasil, já começaram a flexibilizar as exigências, alargando prazos ou até isentando a necessidade de alguns documentos.

Mesmo que os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai) tenham suspendido a Venezuela do bloco, o direito dos cidadãos venezuelanos de solicitarem residência e terem acesso aos serviços públicos de saúde tem sido mantido.

A Argentina, por sua vez, foi além, validando os diplomas de universidades da Venezuela, mesmo sem um acordo bilateral.

Tudo isso para permitir que o imigrante se integre ao mercado de trabalho e não caia nas redes de oportunistas que exploram aqueles que não têm documentos ou mesmo que sejam recrutados pelo crime organizado, como acontece na Colômbia.

Colômbia é o destino mais procurado

A Colômbia já acolheu cerca de 550 mil venezuelanos. Em segundo lugar, vem o Brasil. Só em Boa Vista, em Roraima, já há mais de 40 mil venezuelanos, isto é, cerca de 13% da população local.

Mas há também ilhas no Caribe, próximas à Venezuela, quem têm recebido uma onda de imigrantes, como Curaçao e Aruba. Panamá, Costa Rica e México também têm acolhido milhares de venezuelanos.

Mais ao sul, Equador e Peru já receberam cerca de 100 mil venezuelanos cada um. E muitos enfrentam até 10 dias de ônibus para chegar ao Chile e à Argentina. O número de venezuelanos tem crescido entre 120 e 150% a cada ano tanto no Chile quanto na Argentina. No ano passado, foram cerca de 35 mil em cada um dos dois países. Só em janeiro passado, foram outros 10 mil em Buenos Aires.

Esses números registram somente aqueles que pediram oficialmente a residência. Não inclui todos os que continuam na informalidade.

Mais refugiados do que na Guerra da Síria

De acordo com a Agência da ONU para refugiados, 133 mil venezuelanos pediram asilo em outros países entre 2014 e 2017. Mas esse número diz respeito apenas aos solicitantes devidamente cadastrados.

Não há cifras oficiais do êxodo geral, mas o especialista em imigração da Universidade Central da Venezuela, Tomás Páez, calcula que 1,2 milhão de venezuelanos fugiram do país nos últimos anos. Já o Observatório da Voz da Diáspora Venezuelana calcula o dobro: 2 milhões e 700 mil. São números que superam os da crise na Síria, quando 600 mil sírios pediram asilo na Alemanha.

Os analistas preveem que o êxodo aumente se, no próximo dia 22 de abril, Nicolás Maduro for reeleito. Ironicamente, o próprio êxodo pode ajudar Maduro a se eleger, uma vez que esses refugiados votariam naturalmente na oposição.

O que fazer com Maduro

Há uma estratégia humanitária e outra política. Os países da região tentam um equilíbrio entre pressão diplomática e isolamento máximo do regime de Nicolás Maduro sem, no entanto, sacrificar a população venezuelana.

Na semana passada, um grupo de 14 países da região que monitora a crise da Venezuela pediu a criação de um corredor humanitário internacional para amenizar o drama da população. Os Estados Unidos, por sua vez, anunciaram que estão dispostos a dar ajuda técnica e humanitária a Colômbia e ao Brasil para os venezuelanos imigrantes.

Nicolás Maduro, porém, rejeita todo tipo de ajuda, que, segundo ele, não passa de estratégia para invadirem o seu país. O presidente afirma que os governos regionais de direita são parte de uma conspiração internacional liderada pelos Estados Unidos para derrubá-lo e tomar as reservas de petróleo do país.

 

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