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Propostas de Trump para evitar massacres em escolas decepcionam até republicanos

A pressão popular em Washington e em Tallahassee, a capital da Flórida, por reformas na legislação do controle de armas, um tópico recorrente nos EUA por conta dos seguidos casos de assassinatos em massa, nunca esteve tão intensa. Trata-se de resultado direto do impressionante ativismo dos estudantes da escola secundária Stoneman Douglas, de Parkland. Mas, até o momento, a reposta do governo republicano decepcionou.

Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

A cidade sulista foi cenário na semana passada da mais recente tragédia do gênero nos EUA, quando um ex-aluno de 19 anos, armado com um rifle AR-15 comprado legalmente, matou 17 pessoas, incluindo alunos, professores e funcionários. Na tarde desta quarta-feira (21) presidente Donald Trump, recebeu, na Casa Branca, familiares de vítimas em escolas americanas e eles exigiram ação do governo federal. Ao mesmo tempo, centenas de ativistas protestaram na sede do governo estadual da Flórida e, no fim da noite, milhares de pessoas compareceram a um debate que reuniu familiares dos sobreviventes com alguns dos principais políticos com cargo eletivo do estado sulista, que enfrentaram perguntas duríssimas.

O país se questiona se a carnificina na Flórida pode iniciar um movimento capaz de fazer deputados e senadores enfrentarem um dos maiores fantasmas da democracia americana: o direito de porte e compra de armas, inclusive rifles de uso militar, até mesmo online. Tudo indica que chegou o momento de a elite política americana enfrentar o poder da indústria das armas na maior potência do planeta.

Não é exagero afirmar que esta quarta-feira foi histórica nos EUA. A Casa Branca foi tomada de forma inédita pela voz irada de familiares de sobreviventes dos seguidos massacres que têm assustado, com razão, pais, alunos e professores país afora.

Solução de Trump: armar professores

Foi uma conversa de pouco mais de uma hora, com participação da imprensa, em que cidadãos visivelmente emocionados ouviram um presidente interessado em armar professores como prevenção contra novos massacres. Trump também defendeu o aumento da idade para porte de rifles, de 18 para 21 anos, e uma investigação maior no histórico dos compradores de armas, com especial foco na saúde mental dos indivíduos. Em nenhum momento o presidente, um dos maiores beneficiários de apoio financeiro da principal associação da indústria das armas americana, a NRA, tratou de reforma significativa do controle de armas ou da redução de armas nas ruas do país, pontos centrais do ativismo dos estudantes.

É importante lembrar que este ano há eleições de meio-termo nos EUA, em que todas as cadeiras dos deputados e um terço da dos senadores estão em disputa. No debate de ontem à noite, cidadãos que se identificaram como eleitores republicanos, inclusive uma professora da escola Stoneman Douglas, criticaram duramente a proposta do presidente Trump de armar professores.

O senador Marco Rubio, republicano da Flórida e pré-candidato presidencial em 2016, foi recebido com vaias e pressionado por um aluno a recusar, a partir de ontem, qualquer contribuição da NRA. O senador, que, como esperado, não assumiu nenhum compromisso anti-armas, teve dificuldade para fugir do tema, apesar de ser um político experiente.

Futuro

Os dois senadores da Flórida - além de Rubio, o democrata Ben Nelson - afirmaram no debate que apresentarão uma proposta conjunta na segunda-feira com medidas emergenciais dificultando a aquisição de rifles e afins por menores de 21 anos e aumentando o pente fino entre os interessados em portar armas. Tanto o presidente Trump como o governador da Flórida, Rick Scott, também republicano, recusaram sumariamente o convite para conversar com estudantes e familiares de vítimas no debate de ontem, promovido pela rede de tevê CNN. A ausência foi duramente criticada tanto no debate quanto em toda a mídia.

A diminuição crescente da popularidade de Trump e dos republicanos, que hoje controlam todos os níveis do governo federal, é o principal combustível para uma eventual mudança na legislação dos EUA e - talvez tão importante quanto - uma discussão sobre a própria identidade de uma nação historicamente ciosa da defesa do direito do indivíduo de se proteger e chocada com a quantidade de mortes causadas por cidadãos armados em ambientes como escolas, universidades e igrejas.
 

O debate teve seu volume exponencialmente aumentado porque os estudantes da Flórida, cujo eleitorado se divide quase ao meio entre republicanos e democratas, decidiram se transformar em incansáveis lobistas pela reforma no controle do porte de armas.

Sob o nome Never Again (Nunca de Novo), eles têm exposto, de forma crua, as carnificinas que se repetem em espaços públicos no país mais poderoso do planeta. O primeiro a chamar a atenção aconteceu em 1999 na escola Columbine, no Colorado. Os estudantes dizem que agora estão criando uma verdadeira revolução, que não irão parar até que seus representantes eleitos ofereçam respostas concretas capazes de impedir mais massacres. A ação dos secundaristas foi crucial na decisão da administração federal de receber pais e alunos ontem em Washington.

 

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