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"Política comercial de faroeste" de Trump ameaça todo mundo

Por Alfredo Valladão

Donald Trump no seu livro “A Arte da Negociação” deixou bem claro que tudo na vida é negociata. Só se ganha atacando o interlocutor de maneira brutal e maximalista, para depois aceitar um arranjo. Pedir tudo, mas se contentar com algumas concessões importantes.

Tucídides, o grande historiador de Atenas, já dizia que “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Mas na política internacional, essa arrogância de compra e venda de imóveis pode provocar estragos irreversíveis. A rusticidade das últimas medidas comerciais protecionistas do magnata-presidente podem perfeitamente sair pela culatra. Mesmo se muita gente está convencida de que Trump é cão que ladra mas não morde.

O novo presidente começou o seu mandato batendo a porta da Parceria Transpacífico, um acordo entre as economias mais dinâmicas da Ásia e das Américas feito sob medida para excluir o concorrente chinês e manter a hegemonia econômica americana na região. Um tiro no pé tão apressado, que os americanos já estão querendo reintegrar o grupo.

Logo depois, Trump denunciou o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte com o México e o Canadá. A brutalidade do anúncio balançou o coreto, mas por enquanto estão todos negociando e ainda há chances de salvar o acordo, com algumas concessões mais favoráveis às regiões e setores industriais americanos mais atrasados que o presidente quer proteger.

Em seguida, a bola da vez foi o acordo bilateral de livre-comércio com a Coreia do Sul. Mas diante das ameaças atômicas da Coreia do Norte e a próxima cúpula do “ou-vai-ou-racha” com Kim Jong-un, a Casa Branca decidiu tirar essa pedra do caminho. Os dois lados se entenderam à custa de ligeiras concessões sul-coreanas na área da indústria automobilística.

Agora, Trump sacou da cartucheira a ameaça de pesadas tarifas de importação sobre o aço e o alumínio. A coisa é séria: pode prejudicar diretamente os produtores de grandes parceiros e aliados dos Estados Unidos – o Canadá, o Brasil, a União Europeia ou a Austrália. As Bolsas mundiais despencaram e os fantasmas de uma guerra comercial mundial começam a apavorar o planeta inteiro.

Diante da perspectiva de uma crise econômica global, a Casa Branca deu um passo atrás e isentou praticamente todos os países amigos. O alvo, na verdade, é a China. Trata-se da abertura das hostilidades econômicas contra o concorrente principal. Claro, nem Washington nem Pequim estão a fim de rasgar dinheiro, mas é óbvio que esse tipo de queda-de-braço entre as duas economias mais poderosas do planeta pode perfeitamente se descontrolar.

Estratégia chinesa

Porém, a grossura de Trump é menos irracional do que se pensa. Hoje, o poder econômico está cada vez menos vinculado ao comércio de bens, e cada vez mais ao de serviços, propriedade intelectual e alta tecnologia. O novo plano de desenvolvimento econômico chinês estabelece o objetivo explícito de ultrapassar os Estados Unidos nessas áreas essenciais.

A China vem comprando, copiando e até roubando as empresas mais criativas americanas e europeias. E fechando o seu mercado interno aos investimentos e exportações americanas. Washington está decidido a não tolerar mais esses comportamentos predatórios.

Para administração americana, a única maneira de manter a supremacia dos Estados Unidos no mundo não são mais os foros multilaterais, mas a relação de forças bilateral. Enfrentamentos nos quais o poderio da economia americana tem condições de dobrar os adversários.

Mas Trump também precisa manter o coração do seu eleitorado: os trabalhadores brancos das regiões e indústrias que não tem mais condições de competir com o resto do mundo. E que só podem sobreviver com proteção.

Daí esses arroubos protecionistas que acabam resultando só em pequenos ganhos de curto prazo para os eleitores “trumpistas” dos velhos setores industriais decadentes. Tudo muito “velha política” e prosaico. Se não fosse que toda a economia mundial está ameaçada por essa "política comercial de faroeste".

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