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Homenagem Martin Luther King EUA

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"Racismo sistêmico persiste em nossa sociedade", diz filha de Martin Luther King

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Bernice King, filha de Martin Luther King, durante homenagem na tribuna onde ele proferiu um de seus discursos mais famosos, em 3 de abril de 2018. REUTERS/Karen Pulfer Focht

Os Estados Unidos prestaram homenagem nesta quarta-feira (4) a Martin Luther King, ícone da luta pacifista contra as desigualdades raciais, assassinado há 50 anos em Memphis, Tennessee, por um supremacista branco. Em entrevista à RFI*, Bernice King, sua filha, relembra sua luta e as mudanças que espera para a sociedade nos Estados Unidos e no mundo.


"Ainda não lidamos com a pobreza, nem neste país, nem no planeta", disse Bernice King, filha de Martin Luther King, nesta quarta-feira (4), durante a celebração pelos 50 anos do assassinato de seu pai, em entrevista à RFI. "Você pode olhar em todos os lugares, ver as estatísticas, de muitas maneiras hoje em dia estamos pior do que em sua época", afirmou.

"Temos que criar um mundo mais justo economicamente. Outra coisa muito importante, francamente, é o racismo sistêmico e institucionalizado que persiste em nossa sociedade", denunciou Bernice. "Em todas as áreas da vida norte-americana, muita gente ainda tem menos, e tem acesso negado. Esse movimento que começou com o povo negro tem relevância para trazer para a consciência desta nação que vidas negras importam", declarou.

"Quando jovens se levantam, o país começa a mudar", comentou a filha de Martin Luther King sobre os recentes protestos nos Estados Unidos. "Acho que estamos assistindo a mudanças significativas. Minha esperança, como filha de Luther King, é que todos os movimentos estudem seus passos, porque ele era muito estratégico em suas abordagens", aponta.

"A lembrança mais viva que tenho dele neste momento é este pequeno jogo que costumávamos fazer. Eu me jogava em seus braços e ele dizia - 'Vamos brincar do jogo do beijo'. Ele chamava as manchas que tínhamos no rosto de manchas de doçura. Ele dizia 'onde está a mancha de doçura de Bunny?', que era como ele me chamava. E então me dava um beijo na testa, e repetia a brincadeira com meus irmãos e minha mãe", lembra Bernice King à correspondente da RFI.

O assassinato de Martin Luther King

Em 4 de abril de 1968, às 18h01, o pastor negro Martin Luther King foi letalmente atingido por uma bala na sacada de um hotel de Memphis, onde tinha acabado de dar seu apoio aos garis em greve. Sua morte, aos 39 anos, deflagrou uma série de revoltas em várias grandes cidades americanas.

Cinquenta anos depois, multidões foram às ruas para homenageá-lo: em Washington, ao redor da estátua de seu memorial no Mall, pela manhã, e diante do motel Lorraine de Memphis, depois transformado em museu, na hora exata em que foi executado.

"Em Memphis, haverá muita coisa esta semana. A cidade vai mostrar seu lado mais bonito", afirmou o reverendo Jesse Jackson, emblemático defensor dos direitos civis nos Estados Unidos que estava em Memphis com o pastor King na ocasião de seu assassinato.

A militância de Martin Luther King começou com o movimento de boicote a ônibus em Montgomery, no Alabama, cidade onde ele era um pastor batista. Na época, denunciava a segregação, o racismo e as desigualdades, que vitimizavam os afro-americanos. Em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King entrava para a História com seu discurso "Eu tenho um sonho", diante de cerca de 250 mil manifestantes em Washington na Marcha pelo Trabalho e pela Liberdade.

Um ano depois, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua resistência não violenta contra a segregação racial.

Perseguição policial

Perseguido pela polícia ao longo de toda sua carreira política, o defensor da justiça racial e da não violência é, agora, celebrado com um feriado nos Estados Unidos no dia de seu aniversário, em 15 de janeiro de 1929. "Ainda que ele tenha sido tirado dessa Terra de maneira injusta, ele nos deixou como legado a justiça e a paz", declarou o presidente norte-americano Donald Trump.

"Temos de aspirar, ativamente, a tornar possível o sonho de vivermos juntos enquanto um único povo com um objetivo comum", acrescentou o presidente republicano, acusado de incitar a extrema direita norte-americana, ao multiplicar as investidas contra os imigrantes.

*Entrevista exclusiva a Anne Corpet, correspondente da RFI em Washington