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Nicarágua Protestos Daniel Ortega Movimentos sociais

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“Eu não creio que o governo possa parar os movimentos sociais”, diz sociólogo sobre Nicarágua

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Manifestante nicaraguense segura cartaz contra as políticas de Daniel Ortega, no dia 2 de abril REUTERS/Jorge Cabrera

O presidente nicaraguense Daniel Ortega continuava sob pressão nesta segunda-feira (23), apesar de ter revogado a reforma do sistema previdenciário que desatou uma onda de violentos protestos, saques e choques com a polícia, deixando ao menos 25 mortos.


O Conselho Superior da Empresa Privada (COSEP), que foi aliado de Ortega em seus 11 anos no poder, manteve a convocação de uma marcha contra o governo para esta segunda-feira, enquanto que os estudantes que iniciaram os protestos insistem que não interromperão seu movimento.
 
No domingo, tentando aplacar a revolta generalizada, Ortega anunciou a revogação da reforma no sistema de pensões.

“Eu não creio que o governo possa parar, de uma maneira simples, os movimentos sociais”, disse o sociólogo Oscar René Vargas à RFI. “Os movimentos não estão só em Manágua, mas nas principais cidades do país. Começou com os estudantes, mas se estendeu à população em geral”, acrescentou.

Revogação "tardia"

Depois de mais de quatro dias de confrontos entre manifestantes e forças de segurança, as piores em seus 11 anos de governo, Ortega anunciou que revogou as reformas em um encontro com líderes empresariais.

O Instituto Nicaraguense de Seguro Social (INSS) tomou uma decisão "revogando a resolução anterior, de 16 de abril passado, que foi a que serviu como detonadora para que se iniciasse toda esta situação" de protestos, disse Ortega, acusando ao mesmo tempo os manifestantes de agir como membros de gangue.

Naquela data, o organismo de seguridade social reformou o sistema de pensões para aumentar as contribuições de trabalhadores e patrões a fim de dar estabilidade financeira ao sistema previdenciário, gerando o repúdio da população, que foi às ruas protestar.

O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) disse que confirmou com as famílias das vítimas a morte de 24 pessoas nos protestos, iniciados na quarta-feira.

Entre as vítimas estão estudantes que iniciaram o movimento, policiais e simpatizantes da governista Frente Sandinista - acusados de atacar os manifestantes - e o jornalista Miguel Ángel Gahona, que morreu no sábado atingido por um tiro, quando transmitia pelo Facebook um confronto entre manifestantes e forças de ordem.

A revogação da controversa reforma não convenceu a todos na Nicarágua, onde algumas pessoas consideraram que a medida foi tardia.

“Análise equivocada”

"Ortega está fazendo uma análise equivocada da realidade. Não pediu perdão pelos mortos, não tomou medidas para cessar a repressão, nem desmobilizar grupos paramilitares e continua ameaçando com o uso da força púbica", disse o ex-deputado José Pallais.

No sábado, Ortega havia pedido para dialogar com o setor privado para abordar a reforma do sistema de pensões, mas sua mensagem gerou repúdio entre outros setores que se uniram espontaneamente aos protestos por se sentirem excluídos, acirrando ainda mais os ânimos.

O autodenominado movimento “Ocupa INSS”, um dos que iniciou os protestos, queixou-se que o diálogo "deveria incluir as vozes de todos os setores que pediram uma discussão ampla e inclusiva sobre a forma autoritária e sem consultas como as decisões vêm sendo tomadas".

Líderes políticos acreditam que os protestos vão além do descontentamento com as reformas do sistema previdenciário e apontam para a necessidade de uma mudança na direção do país.

Prêmio Cervantes

O escritor nicaraguense Sergio Ramírez dedicou o Prêmio Cervantes, que lhe foi concedido nesta segunda-feira (23) na Espanha à memória dos manifestantes assassinados em seu país nos protestos violentos contra uma reforma controversa do sistema previdenciário.

Quando ele começou seu discurso na cerimônia de premiação, considerado o Prêmio Nobel de Literatura Hispânica, na Universidade de Alcalá, perto de Madri, ele disse que o dedicou "à memória dos nicaraguenses que foram assassinados nos últimos dias nas ruas por exigir justiça e democracia ".