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Venezuela Eleição Nicolás Maduro Oposição

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Venezuela: apenas participação elevada nas urnas dará chance de vitória a opositor de Maduro

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O presidente Nicoals Maduro e seu adversário Henri Falcón REUTERS/Carlos Garcia Rawlins/File Photos

É num clima de desânimo que os venezuelanos vão às urnas neste domingo (20), para escolher o próximo presidente, em uma eleição na qual os líderes tradicionais da oposição foram impedidos de concorrer e em meio à pior crise econômica e social em mais de 50 anos. Analistas afirmam que apenas uma participação elevada poderá retirar de Nicolás Maduro a reeleição para um segundo mandato.


A surpresa poderia vir na figura do oposicionista Henri Falcón, ex-chavista que decidiu enfrentar o atual presidente nas urnas, a despeito da postura da oposição tradicional, que prega o boicote ao pleito. Nas duas últimas pesquisas de intenções de voto, ele aparece à frente do herdeiro político de Hugo Chávez, com 30% ou até 45% dos votos.

Num cenário que parecia com cartas marcadas para a reeleição de Maduro, uma participação elevada, de acima de 65%, poderia resultar em uma transição política no país – embora Falcón represente uma ruptura bem menos radical de governo do que seriam os opositores Henrique Capriles e Leopoldo López.

“Fica difícil caracterizar em que medida essa eleição vai legitimar politicamente o governo, caso ele ganhe, o que provavelmente ocorrerá se a participação for baixa”, aponta o cientista político Luís Fernando Ayerbe, professor de História e Relações Internacionais da Unesp. “Ou, se o Falcón vencer, em que medida seria uma saída mais tranquila para o governo, em termos de transição, já que ele é visto como um candidato oposicionista, mas tolerado pelo governo. Seria uma forma menos traumática de gerar uma transição.”

O candidato Henri Falcón, do partido Avanzada Progresista, dirige-se a eleitores durante o comício de encerramento da campanha, em Barquisimeto, Venezuela, em 17 de maio de 2018. REUTERS/Marco Bello

Para concorrer, Falcón rompeu com a Mesa da Unidade Democrática (MUD), a coalizão de partidos opositores. A MUD condena a antecipação das eleições, previstas inicialmente para dezembro, e alega que o governo vai fazer o que estiver ao seu alcance para fraudar a votação e garantir a vitória. Os líderes opositores defendem a abstenção, mas as pesquisas indicam que os eleitores não estão de acordo com a medida – entre os que se classificam como opositores a Maduro, 70,5% não concordam que o boicote seja a melhor solução.

Como reagir em caso de vitória de Falcón?

“Se Maduro vencer, o problema político continuará porque a pressão internacional e da oposição, que não reconhecerão as eleições, vão aprofundar a Venezuela no impasse. Mas se Falcón ganhar, teremos uma situação esdrúxula: como se posicionarão a oposição e os países que boicotam a eleição?”, observa Ayerbe. Estados Unidos e países latino-americanos como Brasil e Argentina já adiantaram que não reconhecerão os resultados. “O maior problema da Venezuela é que a eleição não resolve o impasse econômico, que é o que mais preocupa os países vizinhos, com a explosão da emigração e a possibilidade de que a Venezuela se torne semelhante a uma Síria na América Latina, algo que nós nunca vivemos.”

Além dos dois favoritos, um terceiro candidato, o empresário e pastor evangélico Javier Bertucci, também se destaca no pleito, com discurso contrário ao governo. Ele aparece com cerca de 15% das intenções de voto.

“O resultado é que o voto opositor está se dividindo em dois. O mais importante será aumentar a participação”, destaca o sociólogo e consultor Luís Pedro España, pesquisador da Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), de Caracas. O analista não descarta que, em nome da derrota de Maduro, os eleitores oposicionistas abandonem a recomendação dos líderes tradicionais contrários ao governo e compareçam às urnas. “As preferências eleitorais mudaram porque o voto opositor estava reprimido.”

Ante a inflação de 2.700% ao ano, desilusão

Nas ruas da capital venezuelana, o repórter Achim Lippold, da RFI, se deparou com uma população marcada pela falta de esperança, qualquer que seja o vitorioso no domingo. “Como sobreviver nesta situação? Sem comida, sem transporte, sem segurança? Com um salário tão baixo que não consigo comprar nada?”, disse o trabalhador Angel, enquanto esperava ao lado de centenas de outros passageiros por um ônibus que o levasse à periferia, onde mora. O preço da cesta básica aumentou 300% em três meses – e custa 100 vezes o valor salário mínimo.

“Jamais votaria em Maduro, mas, ao mesmo tempo, não tenho confiança nos outros candidatos”, sublinha Angel. O programa econômico de Falcón é ousado, porém vago: ele promete dolarizar a economia para equilibrar os salários e combater a hiperinflação, de até 2.700% ao ano. Mas o candidato não detalhou como faria o ajuste.

Seu principal assessor é o economista Francisco Rodríguez, doutor em Harvard, que assumiria a pasta da Economia em caso de vitória do opositor. Ele já adiantou que não hesitaria em recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para resgatar o país do buraco.

"Concorrer com o primeiro mundo"

Enquanto isso, a equipe de Maduro se recusa a falar em crise, embora o PIB venezuelano tenha enxugado 35% desde que ele assumiu, em 2013. No seu último comício, na quinta-feira, o presidente prometeu “prosperidade e uma revolução econômica”, se for reeleito.

Comício de encerramento do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas, Venezuela, em 17 de maio de 2018. REUTERS/Adriana Loureiro

Em plena campanha, o governo aumentou o valor da principal assistência social, o Carnê da Pátria. No palanque, Maduro chega a oferecer um prêmio para quem for às urnas – e sua equipe assegura que vai verificar quais beneficiários comparecerão à votação.

“Todos que têm o carnê precisam ir votar”, disse Maduro à militância chavista. “O próximo governo vai fazer a Venezuela crescer a ponto de poder concorrer com qualquer país de primeiro mundo”, assegura Georgette Topalian, do comitê de campanha do presidente, à RFI.