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Presidente do Banco Central da Argentina renuncia em meio a acordo com o FMI

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Sturzenegger será substituído pelo atual ministro das Finanças, Luis Caputo, braço direito do presidente Macri. REUTERS/Marcos Brindicci

Quando se insinuava uma nova corrida cambial que, na quinta-feira (14), estabelecia um novo recorde no valor do dólar, o presidente do Banco Central argentino, Federico Sturzenegger, renunciou ao cargo. A decisão é mais uma indicação do tamanho do desafio econômico e político que enfrenta o governo do presidente Mauricio Macri.


Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
 
Sturzenegger será substituído pelo atual ministro das Finanças, Luis Caputo, braço direito do presidente Macri. Essa proximidade pode ser lida como uma sintonia com as decisões de governo, mas também pode prejudicar a autonomia do Banco Central em relação ao Executivo, um compromisso assumido com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para o recém anunciado acordo por US$ 50 bilhões.
 
Em consequência com a migração de Caputo ao Banco Central, o atual ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, absorve também a pasta de Finanças, ampliando ainda mais o seu peso dentro do gabinete de ministros.

Sem trégua 
 
Se a conclusão do acordo poderia supor uma trégua dos mercados sobre o peso argentino, na prática, tem sido o contrário. Na contramão das moedas da região que tiveram uma leve recuperação, a moeda argentina sofreu na quinta-feira (14) uma nova desvalorização de 6,4% em um único dia, atingindo 28,44 pesos por dólar. A alta desde o começo da corrida cambial na última semana de abril já chega a 40%.
 
"Não há maior demanda de dólares, mas ninguém vende dólares no país. Nem pelo lado das exportações nem pela oferta de crédito. Até que chegue o dinheiro do FMI, estamos num limbo de falta de dólares", avalia à RFI o economista Fausto Sportono.
 
A falta de controle sobre o dólar e sobre a inflação, sem cumprir com as metas estabelecidas desde 2016, foi fundamental para ruir a credibilidade do agora ex-presidente do Banco Central.
 
"Nos últimos meses, diversos fatores deterioraram a minha credibilidade no mando da instituição", admitiu Federico Sturzenegger na sua carta de renúncia.
 
O seu substituto, Luis Caputo, foi quem negociou a saída da Argentina, em 2016, da situação de moratória da dívida com os fundos especulativos, os chamados "fundos abutre". Também foi quem freou a corrida cambial do mês passado em negociações diretas com bancos e fundos de investimento do exterior.

Carta de intenção com o FMI
 
A renúncia de Sturzenegger coincide ainda com a divulgação da carta de intenção com o FMI.
 
O plano com o FMI implica um ajuste mais acelerado para reduzir o déficit fiscal e para controlar a inflação que deve duplicar o previsto no começo do ano.
 
A nova inflação prevista para o ano é de 27%, com uma margem de erro de cinco pontos, até 32%. Esse nível de inflação antecipa conflitos sociais. Nesta semana, os caminhoneiros e professores fizeram greve. Foi convocada também uma greve geral para o próximo dia 25.
 
Pelas metas do acordo, a Argentina se compromete a uma inflação de 17% em 2019 e de 9% em 2020. O crescimento econômico de 2018 deve ficar entre 0,4% e 1,4%. O déficit primário deve chegar a zero em 2010, numa sequência decrescente de 2,7% em 2018 e de 1,3% em 2019.
 
O acordo com o FMI ainda não passou pela aprovação da diretoria, prevista para o próximo dia 20. O primeiro desembolso de US$ 15 bilhões chegaria ao país no dia 22, sendo a metade para cobrir o parte do déficit fiscal; metade para reforçar as reservas do Banco Central.
 
"O acordo com o FMI é o novo plano econômico. Neste momento, estamos num impasse. Não desativamos a inércia de como vínhamos nem aplicamos o novo programa negociado com o Fundo Monetário", observa Sportono.