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Recuo de Trump “neutraliza efeito perverso”, mas severa política migratória dos EUA continua

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O recuo do presidente americano Trump que suspendeu a separação de crianças dos pais imigrantes clandestinos nos Estados Unidos é manchete do jornal Libération desta quinta-feira (21). Reprodução RFI

Na resenha da imprensa francesa desta quinta-feira (21), o recuo do presidente americano Donald Trump que suspendeu a separação de crianças dos pais imigrantes clandestinos nos Estados Unidos. O conservador Le Figaro diz que a decisão do líder americano apenas “neutraliza” um dos efeitos perversos da política migratória americana.


Le Figaro diz que diante dos protestos o presidente americano teve que abandonar sua política de separação de famílias de imigrantes. O jornal conservador informa que até deputados e governadores republicanos estavam preocupados com os estragos eleitorais que a medida polêmica e "moralmente embaraçosa" poderia acarretar. Sensibilizado pelas preocupações dos políticos, Trump finalmente assinou na quarta-feira (20) um decreto autorizando a permanência das crianças com seus pais durante o estudo do dossiê dos imigrantes pelos tribunais americanos.

O recuo acontece após vários dias de uma queda de braço do presidente com o Congresso. Usando o espetáculo chocante das famílias separadas, Trump tentava obter a aprovação da sua reforma sobre a imigração, incluindo o financiamento do muro na fronteira com o México. A política de “tolerância zero” aplicada deste o início de maio aos imigrantes, clandestinos ou candidatos ao asilo político, que tentam entrar nos Estados Unidos não será suspensa pelo presidente, mas um de seus efeitos “perversos deve ser neutralizado”, aponta Le Figaro.

Segundo último balanço divulgado pelo departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, 2.342 menores foram separados de seus pais entre os dias 5 de maio e 9 de junho, e colocados em refúgios provisórios, ou melhor, jaulas que chocaram o país e o mundo.

“Campos de concentração”

Aujourd'hui en France escreve que Trump cedeu, pela primeira vez, diante da indignação provocada pelas imagens desses refúgios que o diário chama de "campos de concentração". Além do decreto presidencial, a maioria republicana no Congresso redigiu um projeto de lei sobre o tema que será votado nesta quinta-feira.

O texto prevê o fim da separação das famílias de imigrantes, propõe encontrar uma solução "elegante" para os "dreamers", como são chamados os menores clandestinos nos Estados Unidos, em troca do financiamento milionário do muro na fronteira com o México, uma das principais promessas de campanha de Trump. O projeto deve ser adotado na Câmara, mas têm poucas chances de ser aprovado no Senado onde os republicanos têm uma maioria apertada, avalia Aujourd'hui en France.

"Patologia xenófoba"

As imagens dos menores imigrantes detidos em jaulas, aterrorizados e separados de seus pais escandalizaram e mancharam a imagem do país, sentencia Libération. Além dos deputados democratas e republicanos, intervieram contra a medida a primeira-dama dos Estados Unidos, a recatada Melania, a filha do presidente Ivanka, a OCDE, organizações de direitos humanos, ex-primeira-damas, estrelas de hollywood, líderes religiosos… a lista é longa. Resumindo, foi necessário uma mobilização nacional e mundial para que Donald Trump volte atrás e aceite não punir desta maneira pais que cometeram como único crime a travessia ilegal da fronteira americana para trabalhar nas plantações de laranja e em restaurantes texanos.

O jornal denuncia em seu editorial essa patologia xenófoba em um país que historicamente se construiu com a imigração. Libération compara a situação americana com a posição do novo governo italiano, que além de não aceitar o navio Aquarius com seus 600 imigrantes a bordo, impõe um censo dos ciganos no país. Essa é a realidade de países, considerados em princípio democráticos, que “se abandonam ao mal nacionalista” e onde a “obsessão identitária passa na frente dos direitos humanos”, lamenta o texto. Libération tem dúvidas sobre o impacto imediato desse recuo do presidente Trump nessas práticas que violam nossos direitos mais elementares.