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Eleição no México deve ter virada histórica à esquerda

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O candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador no último comício da campanha, na quarta-feira (27), na Cidade do México. REUTERS/Edgard Garrido

O méxico vai às urnas no próximo domingo em eleições gerais já consideradas históricas. Pela primeira vez, os mexicanos votam ao mesmo tempo para presidente e todos os outros cargos eletivos do país. Também pela primeira vez, um candidato de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, deve vencer a presidencial e conquistar a maioria no Congresso. A análise de que essa guinada à esquerda vai na contramão de recentes eleições na América Latina divide especialistas ouvidos pela RFI.


O México viveu um clima de dupla euforia nesta quarta-feira (27). Ao mesmo tempo em que os candidatos realizavam os últimos comícios de campanha, o país acompanhou a classificação sofrida da seleção mexicana às oitavas de final na Copa do Mundo na Rússia. Aliviados com a classificação e antes do jogo contra o Brasil, os 90 milhões de eleitores votam no próximo domingo na maior eleição da história do país. Eles vão escolher o novo presidente, nove governadores, prefeitos e renovar o Congresso Nacional, as Assembleias regionais e municipais. Ao todo, mais de 18 mil cargos estão na disputa e os mexicanos querem mudanças.

No México, cuja legislação eleitoral não contempla o segundo turno, os últimos presidentes foram eleitos com menos de 40% dos votos. O candidato da esquerda para a presidência, López Obrador, do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), é o favorito. Desde o início da campanha, ele lidera com folga as pesquisas e chega nessa reta final com uma vantagem superior a 20 pontos em relação ao segundo colocado, Ricardo Anaya, do Partido da Ação Nacional (PAN) que integra a coalizão de direita Pelo México à Frente. Em terceiro lugar, está José Antonio Meade, do governista Partido Revolucionário Institucional (PRI).

Na contramão da América Latina?

O vitorioso nas pesquisas, ex-prefeito da Cidade do México e candidato a eleição presidencial pela terceira vez, promete uma “transformação pacífica e ordenada” para acabar com a corrupção, a pobreza, a insegurança e a violência no país. Ele se beneficiou do desgaste da política tradicional, do baixo crescimento econômico e da impopularidade do atual governo de Enrique Peña Nieto.

Para Hélène Combes, professora do Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences Po) e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa francês (CNRS), especializada nas eleições mexicanas, “López Obrador será provavelmente um dos raros presidentes de esquerda na região, nesse momento em que a América latina conhece uma virada à direita”.

Gaspar Estrada, do Observatório Político da América Latina e do Caribe (OPALC), relativiza essa análise. Como em outros países da região, “há um grande desejo de mudança na região. Houve uma alternância de poder no Chile, na Colômbia e é isso que vai ficar claro no México”, diz o cientista político que está na Cidade do México para acompanhar as eleições.

Já o ex-embaixador brasileiro, Rubens Barbosa, afirma que a eleição de Obrador “vai na contramão do que está acontecendo com o mundo”.

Novo Chávez?

Vários adversários acusam o candidato do Morena de populismo e de ser um “Chávez mexicano”. Hélène Combes e Gaspar Estrada discordam dessa leitura. A pesquisadora do CNRS ressalta que Obrador não é nem um “outsider do sistema político”, nem um “salvador da pátria”, nem “uma pessoa carismática”.

O candidato de 64 anos tem uma longa experiência política e seu sucesso se explica pela “lenta e progressiva construção de seu movimento partidário”, que está implantado em todo o território.

Campanha mais violenta da história

A violência marca essa campanha eleitoral mexicana. Mais de cem candidatos, principalmente às eleições municipais, já foram assassinados. Hélène Combes acompanha as eleições no país desde os anos 1990. Ela lembra que infelizmente o país tem uma tradição de violência: “Hoje tem mais visibilidade porque tem a eleição presidencial ao mesmo tempo. Antes isso não acontecia. No entanto, os números atuais são impressionantes. Evidentemente, ao lado desta tendência de violência política, que vem desde a época da Revolução Mexicana, se soma a presença do crime organizado.”

A pesquisadora acredita na possibilidade de López Obrador trazer mudanças na questão da segurança, que é de competência federal. “Ele foi o primeiro a assumir que, de uma certa maneira, o México vive um conflito interno e vai impulsionar um processo de saída desse conflito. Lembro que desde 2006, mais de 250 mil pessoas morreram na guerra do narcotráfico (…) Mesmo sendo de competência federal, a questão da insegurança aborda realidades locais extremamente heterogêneas”, salienta.