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Clima de guerra comercial prejudica países emergentes e em desenvolvimento

Por Alfredo Valladão

A enxurrada de medidas protecionistas anunciadas por Donald Trump ainda não afetaram diretamente a saúde da economia mundial. E como sempre, os primeiros a sofrer serão os países em desenvolvimento – e particularmente os emergentes. Por enquanto, as barreiras comerciais anunciadas pela Casa Branca ainda não se tornaram realidade.

Mas os atores econômicos já estão reagindo. E os efeitos negativos, em termos de investimento, criação de empresas e emprego vão começar a bater feio nos Estados Unidos.

O ápice do fechamento de indústrias e dos despedimentos vai cair exatamente na época das eleições legislativas de meio-mandato. E o setor mais atingido será a base eleitoral dos Republicanos “trumpistas”: os agricultores do Centro-Oeste e as pequenas cidades rurais que vivem de velhas indústrias enferrujadas. 

Basta só uma pequena parte desses eleitores não comparecer às urnas e Trump pode perfeitamente perder o controle da Câmara e até do Senado. Uma catástrofe para o futuro do seu mandato.
Mas por ora, o lourão da Casa Branca não quer nem saber. Suas ideias são simplórias: a América é a maior potência econômica mundial e portanto, pode utilizar essa supremacia para apertar o crânio de seus parceiros comerciais no resto do mundo.

O objetivo é fechar acordos leoninos em que os Estados Unidos sempre levem vantagem. É uma visão à antiga que quer trazer de volta para o território nacional as indústrias tradicionais – mesmo as que não são competitivas e por isso serão protegidas – e ao mesmo tempo, manter a preeminência americana na economia digital e na tecnologia de ponta. Ele quer ter o bolo e comer o bolo.

Com essa mentalidade de promotor imobiliário barra-pesada só pode haver ganhadores e perdedores. Qualquer forma de cooperação ou interdependência econômica é vista como uma agressão contra os Estados Unidos.

Encontrar nichos

Para os países emergentes e em desenvolvimento é difícil sobreviver nesse ambiente. Todos já chegaram à conclusão que não é mais possível subsistir só exportando matérias-primas. Mas também sabem que não têm condições de crescer só com seus mercados internos ou de competir nas indústrias de ponta.

A única solução é tentar encontrar nichos – industriais ou de serviços – nas grandes cadeias globais de produção. Quanto mais valor agregado, melhor o nicho. E mais chances terão de deslanchar um crescimento sustentável. Mas para isso é preciso muito – muitíssimo – investimento produtivo, que só pode vir do estrangeiro já que pouquíssimos países tem capacidade própria.

Só que o clima de guerra comercial não ajuda. Estados Unidos e Europa representam quase 60% do consumo privado mundial. Com barreiras protegendo esses mercados consumidores gigantes, as cadeias globais simplesmente começam a desandar.

O último relatório da UNCTAD aponta uma queda preocupante dos investimentos internacionais nas cadeias de produção globais. Em 2017, o valor das fusões e aquisições internacionais caiu 22%, enquanto as inversões em novos empreendimentos baixou de 14%.

O golpe é pesado já que o investimento exterior é a maior fonte de dinheiro novo para os países pobres. E não é por acaso que as quedas mais brutais aconteceram na África e na América Latina e Caribe. A razão é simples: o medo das medidas protecionistas entre as grandes potências faz com que as cadeias de valor internacionais estejam brecando, e que as taxas de lucro estejam despencando. Poucos estão a fim de arriscar.

O problema é que as grandes economias industriais podem sofrer, mas têm meios de aguentar o rojão, sobretudo se forem capazes de entrar rapidamente na nova economia digital, robotizada e customizada, menos dependente do comércio internacional de bens.

As outras só terão vez se convencerem os investidores que vale a pena apostar em seus países. Mas isso significa um baita dever de casa interno para melhorar as infraestruturas, a educação, o império da lei, o sistema regulatório, a luta contra a corrupção... – a chamada “competitividade sistêmica”. E nada disso depende de Trump e de suas loucuras.

Alfredo Valladão faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI      

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