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Assembleia Geral da ONU deverá gerenciar crise do multilateralismo

Chefes de estado e de governo de mais de 190 países estarão reunidos esta semana em Nova York para a Assembleia Geral da ONU. Como é tradição, o Brasil, na figura do Presidente Michel Temer, vai fazer o discurso inaugural. Mas o retorno de uma competição entre as nações e falta de cooperação internacional por parte dos EUA coloca em questão o  próprio papel da organização

Natasha Madov, correspondente da RFI em Nova York

Diplomatas e chefes de estado e de governo de 193 países chegam em Nova York para participar da 73a Assembleia Geral da ONU. A reunião dos líderes começa nesta terça-feira (25) e vai até 1o de outubro. Essa será a primeira vez que uma mulher latino-americana vai presidir o evento: a ex-chanceler do Equador Maria Fernanda Espinosa Garces. Neste ano, o encontro enfrenta uma crise de confiança em relação à própria atuação que a ONU pode ter na gestão dos conflitos do planeta.

Há um retorno da competição entre as grandes potências, como a Rússia, e a retirada dos Estados Unidos dos mecanismos de cooperação internacional, lembra o representante do Conselho Europeu para as relações exteriores, Manuel Lafont-Rapnouil, entrevistado pela RFI. Ao deixar o acordo nuclear com o Irã, ao se recusar a ratificar o documento da Conferência para o clima de Paris, "os Estados Unidos dificultam a construção de uma cooperação multilateral", diz o especialista, que também lembra que o conceito já atravessou outras crises.

Por isso o mundo está esperando o que Donald Trump vai falar. Esta será a segunda Assembleia Geral do presidente dos Estados Unidos, e ao contrário do ano passado, os representantes globais reunidos na sede da ONU já conhecem melhor os humores do líder norte-americano. No ano passado, Trump surpreendeu a todos ao fazer um discurso belicoso contra a Coreia do Norte e chamar o presidente Kim Jong-un de "homenzinho-foguete".

Este ano, porém, ele pretende argumentar que a abordagem ousada rendeu frutos, levando a uma suposta vitória diplomática com a Coreia do Norte. Em junho, os dois chefes de Estado se encontraram em Cingapura, e assinaram um acordo em que a Coreia se comprometia a destruir seu arsenal nuclear. É essa vitória que Trump quer mencionar em seu discurso, ainda que o mundo ainda não tenha visto progresso real nesse sentido.

Outro tópico esperado é a guerra comercial com a China. Mas analistas preveem que a bola da vez será o Irã, e que Trump não vai medir palavras sobre o acordo nuclear com os iranianos. Um acordo do qual ele se retirou, mas que os países europeus ainda estão tentando salvar. Trump também vai presidir uma reunião com o conselho geral de segurança da ONU na quarta-feira. Esta reunião inicialmente seria apenas sobre o Irã, mas a pauta foi ampliada para acordos de não-proliferação de armas em geral, como uma forma de evitar atritos entre os países membros do conselho.O presidente também terá reuniões bilaterais com Reino Unido, Japão, França, Coreia do Sul, Egito e Israel.

Reação da comunidade internacional

A palavra-chave dos americanos será soberania, um tema alinhado com a promessa de Trump de sempre colocar a América em primeiro lugar. É por essa razão, por exemplo, que ele está retirando os Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris e do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Mas o propósito da ONU é justamente o multilateralismo, o que significa todos os países trabalhando em cooperação uns com os outros.

É essa a bandeira que a Assembleia deste ano quer defender, que organizações multilaterais como a ONU são importantes e devem ser preservadas. Muitos países também estão tentando passar ao largo dos Estados Unidos em algumas negociações. É o caso do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, que vai se reunir com o presidente do Irã Hassan Rouhani.

Participação do Brasil e da América do Sul

Como é a tradição, o Brasil vai fazer o discurso de abertura. Será também a última Assembleia Geral do presidente Michel Temer. Até o domingo à noite o Itamaraty não tinha antecipado os temas do discurso de Temer, mas sabe-se que algumas das pautas do Brasil em Nova York serão a defesa do multilateralismo e a reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Na segunda, Temer almoça com empresários. Na terça, ele começa o dia se reunindo com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Na sequência, o presidente faz o discurso de abertura e logo depois se encontra com o presidente recém-eleito da Colômbia, Ivan Duque. O último compromisso antes de retornar ao Brasil na terça à tarde é uma reunião de cúpula com os líderes do Mercosul.

Durante a Assembleia Geral, os chefes latino-americanos deverão discutir as revoltas populares na Nicarágua, a crise econômica na Argentina, possíveis negociações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia e finalmente, o êxodo venezuelano. O último tópico provavelmente será a pauta da reunião bilateral entre Temer e Duque, já que tanto Colômbia quanto Brasil estão recebendo refugiados da Venezuela.

O presidente da Venezuela Nicolás Maduro já avisou que não vem a Nova York por temer por sua segurança. Daniel Ortega, presidente da Nicarágua e pivô da atual crise no país, também não confirmou presença.

(Com colaboração de Nicolas Falez, correspondente da RFI em Nova York)

 

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