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Estados Unidos Democratas Donald Trump Eleições de meio de mandato

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Novas investigações contra Trump e agenda positiva são desafios para democratas

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Eleitores democratas de Ohio celebram vitória do senador Sherrod Brown. REUTERS/Aaron Josefczyk

Com a vitória dos democratas na Câmara de Representantes e o reforço da maioria republicana no Senado americano, após as eleições de meio de mandato desta terça-feira (6), o país entra em uma fase de governo dividido. Medidas importantes do presidente Donald Trump provavelmente não serão aprovadas pelo Congresso nos próximos dois anos Os parlamentares também devem abrir investigações sobre as suspeitas de corrupção entre colaboradores do presidente.


É consenso entre os analistas ouvidos pela RFI que a corrida presidencial de 2020 foi lançada nos Estados Unidos, e Trump não deve mudar de política apesar do revés republicano na Câmara.

A partir de janeiro, os democratas poderão impedir a adoção de mudanças no orçamento, nas políticas sociais, como no caso do programa de saúde Obamacare, criado pela administração democrata anterior, e outras reformas planejadas por Trump, incluindo a continuidade nas obras do muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos para evitar a entrada de imigrantes no território americano.

Os resultados das urnas confirmaram uma sociedade profundamente dividida, polarizada, mais do que há dois anos, quando Trump chegou à Casa Branca, e estabelecem um desafio para os democratas no exercício da oposição.

Nova agenda

A criação de uma nova plataforma política, com temas importantes para os americanos, e que seja capaz de modificar a agenda agressiva imposta por Trump, é o maior desafio da oposição, estima o cientista político Arnaldo Francisco Cardoso, professor de Relações Internacionais na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo.

"O risco é os democratas terem de produzir um Trump democrata, no estilo de um Michael Bloomberg, que já foi prefeito republicano de Nova York, voltou para o Partido Democrata e agora quer disputar as primárias, o que não seria uma vitória de novas lideranças dentro do partido", destaca Cardoso. "A maior armadilha para o Partido Democrata seria fazer o mesmo jogo de Trump, devido aos danos que ele causou à democracia americana, tanto na sua forma de comunicação, como na construção da agenda e no uso das redes sociais", assinala.

Na avaliação de Claudio Couto, coordenador do mestrado em Gestão e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), os democratas terão de mostrar que o radicalismo não está com eles, e sim com o presidente Trump.

"Esse tipo de retórica e de prática divisiva e agressiva não é alguma coisa que caracterize o Partido Democrata, marcado pela moderação, mas é sim uma característica do Partido Republicano e em especial desse governo Trump, que foi além de tudo aquilo que vimos antes em termos de radicalidade, como nos governos Bush, que já foram considerados muito à direita, mas que não se comparam ao que vemos nesse momento", ressalta Couto.

Na opinião do especialista da FGV-SP, os democratas precisarão construir uma plataforma alternativa e deveriam vetar apenas as políticas de cunho xenófobo e radical de Trump, ou que sejam contrárias aos interesses dos mais pobres, de forma a mostrar que estão fazendo uma oposição responsável ao governo e não atuando contra o país.

Segundo Virgílio Arraes, professor de História Contemporânea da Universidade de Brasília (USP), especialista em história dos Estados Unidos, o denominador em comum entre os democratas é a questão da saúde, uma espécie de marca do partido desde a época do governo de Lyndon Johnson (1963-1969).

A imigração latino-americana, um tema de menor abrangência, mas ao mesmo tempo bastante tocante e delicado no sul do país, também receberá atenção dos novos parlamentares. "A partir dessas duas questões, eu acredito que os democratas vão tentar firmar a oposição programática contra o governo Trump. Eles vão tentar ainda explorar os laços supostamente indevidos de membros do governo dele com os russos, mas os democratas ainda não têm nomes firmes para a presidência e qual seria a pauta mais adequada para se opor ao governo Trump", opina Arraes. 

Couto, da FGV-SP, também acredita que as investigações sobre a empresa Cambridge Analítica na manipulação de dados dos eleitores na campanha de 2016 – e o papel da Rússia na vitória de Trump – devem ser retomadas pelos democratas e trazer à tona novas revelações.

Avanço das mulheres

Os resultados ainda não são definitivos, mas segundo as últimas projeções, ao menos 100 mulheres vão atuar na próxima legislatura na Câmara de Representantes. Serão 15 a mais do que o recorde anterior, que era de 85 deputadas. O Senado contará com 22 mulheres.

Os democratas conseguiram quebrar alguns tabus, como eleger as duas primeiras muçulmanas na Câmara, as duas primeiras indígenas, a mais jovem congressista, as duas primeiras parlamentares negras pelo estado de Massachussets e o primeiro governador homossexual assumido no estado do Colorado.

Na visão de Couto, "da quantidade virá a qualidade". Para o especialista da FGV-SP, com as mulheres assumindo um protagonismo maior no Legislativo, devem surgir lideranças com força suficiente para se credenciar politicamente, talvez assumindo a presidência da Casa e outras funções relevantes, produzindo um ciclo virtuoso.

Pobreza

Arraes, da UNB, vê aspectos positivos nesse aumento da diversidade parlamentar, mas lembra que a maior preocupação, hoje, dos americanos é saber de que maneira o nível de vida deles será mantido. "Ao lado dos tópicos comportamentais, que têm maior acolhimento entre os democratas, haverá preocupação com a questão do emprego e questões de saúde e educação", observa o historiador.

"Os Estados Unidos continuam na liderança mundial em termos de ciência e tecnologia, mas paradoxalmente têm hoje a primeira geração de pessoas sem esperança de participar desse novo grau de conhecimento, sem dinheiro para pagar a universidade. É uma sociedade que pode ficar cada vez mais desigual. O principal desafio dessa nova legislatura e das que virão no futuro é reverter essa tendência", afirma o professor da UNB. A política de Trump criou empregos, mas os salários não evoluem nem as desigualdades diminuem.

Cidadania

Um tema muito presente na campanha e que certamente será motivo de embates na Câmara e no Senado é o da cidadania por nascimento. Como Trump teve derrotada sua proposta no Congresso, ele agora ameaça modificar por decreto a 14ª Emenda Constitucional, que data de 1868, e confere cidadania a quem nasce no território americano. Essa postura de Trump é vista como mais um sinal de nacionalismo, branco, e que para ser perseguido despreza instituições centenárias como a Constituição, destaca Cardoso, da Universidade Mackenzie.