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Cúpula do G20 Buenos Aires Argentina Emmanuel Macron G20

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Cúpula do G20: Buenos Aires vive caos entre blindagem militar e protestos sociais

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A polícia de choque monta guarda durante um protesto contra a cúpula do G20, em Buenos Aires, Argentina, em 28 de novembro de 2018. REUTERS/Marcos Brindicci

Os argentinos ficaram reféns de uma cidade blindada e preferem fugir. Comerciantes acumulam perdas e transtornos. A cúpula de líderes do G20 começa nesta sexta-feira (30), mas as interrupções em aeroportos, portos, trens, linhas de metrô e autoestradas de acesso à capital argentina já começaram nesta quinta-feira (29).


Marcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Buenos Aires se tornou uma cidade blindada por um rígido esquema de segurança. Enquanto o mundo volta as atenções ao que vai acontecer na capital argentina, seus moradores preferem fugir e comerciantes acumulam perdas econômicas.

No bairro nobre da Recoleta, Gisela Ortiz, 31, tenta passar pelo bloqueio de segurança com grades e agentes da polícia do Exército. Os militares pedem documento e revistam as bolsas e as mochilas daqueles que tentam voltar às suas casas dentro desta zona onde alguns líderes se hospedam. A área está totalmente vedada e só moradores previamente acreditados podem passar.

"Ainda hoje, vamos embora. Não vamos ficar aqui por estes dias. Vamos para a casa da minha mãe a duas horas de viagem daqui, ao Sul da província de Buenos Aires. Tenho três filhos pequenos. Não posso deixá-los trancados durante três dias num apartamento", explicou Gisela à RFI, enquanto passava pelo cerco com o carrinho de bebê e duas crianças. "Queremos estar tranquilos e poder circular normalmente", disse.

A rotina dos 'portenhos' foi alterada pelo G20. Nas áreas de segurança onde os líderes hospedam-se (Recoleta e Puerto Madero), não há circulação de automóveis e o sinal de wifi pode ser interrompido. No corredor Norte da cidade, onde ocorrem as reuniões e por onde os líderes aterrissam, ninguém entra. Nem mesmo pedestres. O cerco inclui as áreas da cidade por onde os líderes vão passar a algum evento como o espetáculo no Teatro Colón, nesta sexta-feira (30) à noite. Para completar o panorama, manifestantes preparam marchas e bloqueios nas autoestradas de acesso à cidade.

Passantes atravessam barreiras de segurança feitas com painéis de metal colocadas antes da cúpula do Grupo 20, em Buenos Aires 28/11/18. REUTERS/Sergio Moraes

Desconforto e medo dos moradores: rotina alterada

"É chocante. Tenho a sensação de estar cercada como num estado de sítio", definiu Maria Martín (34), advogada e tradutora que atravessa diariamente a cidade até o Hotel Alvear, o mais tradicional de Buenos Aires e onde se hospedarão alguns dos líderes.

"Foi tudo fechado da noite para o dia. Não entendo como puderam fazer este dispositivo de segurança com tanta gente importante numa só avenida. Todos concentrados numa zona residencial, uma tentação a um atentado. É impossível controlar tanta gente. É a sensação de cerco quando você sabe que pode ser um alvo", espantou-se.

Para Maria, deixar tantos chefes de Estado e de governo concentrados torna a região um "alvo fácil para qualquer ataque", até porque "ninguém revistou os apartamentos da área nos dias prévios para saber se havia explosivos".

"É realmente uma bomba-relógio. A sensação é a de que pode acontecer qualquer coisa. Não me sinto segura. Como vão controlar isso? Vão casa por casa?", questionou.

Para o caso de um eventual atentado, oito hospitais entraram em um preventivo "alerta vermelho". Leitos na área de Terapia Intensiva foram reservados, cirurgias programadas para esta semana foram adiadas e os plantões, reforçados.

No bairro vizinho de Retiro, concentram-se estações terminais de trem, metrô e ônibus de longa distância. Toda circulação desses transportes públicos ficará interrompida até domingo (2). Numa tentativa de aliviar os transtornos, o governo argentino decretou feriado na cidade de Buenos Aires nesta sexta-feira.

A cidade blindada, sitiada pelas forças de segurança. REUTERS/Agustin Marcarian

Darío Caro, 41, é vendedor ambulante na área por onde passam milhares de pessoas por hora. "Quatro dias sem trabalhar me afetam muito porque vivo dia-a-dia, tendo que pagar aluguel e tendo de levar comida a quatro filhos", reclamou este vendedor de batatas fritas.

Dario vive na favela Villa La Cava, incrustada na área nobre de San Isidro, município a 18 km de Buenos Aires. Na sexta-feira, uma atividade do "Programa de Acompanhantes" do G20 levará as primeiras-damas a conhecer um célebre palácio da região que, por isso, também sofrerá interdições.

"Vou ficar em casa. Se eu sair, gasto dinheiro e não estou em condições. Além disso, já recebi uma mensagem pelo WhatsApp avisando que também vão bloquear a circulação onde moro", contou Dario, mostrando à RFI a mensagem do Ministério da Segurança: "Na sexta-feira, das 7 às 16 horas não se poderá transitar publicamente nem em veículos, assim como não poderão permanecer veículos estacionados em determinadas ruas".

Emmanuel Macron escolhe restaurante brasileiro

O aeroporto metropolitano de Buenos Aires foi fechado a partir desta quinta-feira para a chegada e partida dos líderes do G20. No começo da semana, uma greve da companhia aérea Aerolíneas Argentinas também interrompeu a normal atividade do aeroporto.

Jésica Corbalán, responsável pelo café Havanna, descreveu os prejuízos. "Foi praticamente uma semana perdida. Nosso faturamento caiu muito e agora estamos obrigados a fechar até segunda-feira. O estabelecimento perde, mas os funcionários também, porque metade do que ganham é salário, mas a outra metade é gorjeta", indicou.

Puerto Madero é a outra área nobre que hospeda líderes. O restaurante Cabaña Las Lilas, um dos melhores do país, de sócios brasileiros, foi o escolhido pelas delegações oficias. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou à cidade na noite de quarta-feira e foi jantar no Cabaña Las Lilas. Mesmo assim, o restaurante acumulará perdas.

"O G20 nos beneficia por uma questão de imagem porque recebemos um público internacional de presidentes, ministros e secretários. É bom para o marketing do restaurante", afirmou o gerente do Cabaña Las Lilas, Gastón del Valle, quem, no entanto, desfaz o mito do lucro com as delegações estrangeiras. "Não são dias de lucro. Pelo contrário, faturamos entre 40% e 50% a menos porque as delegações que vêm ao restaurante não são suficientes para substituir o nosso público tradicional, especialmente os turistas que, por estes dias, deixaram de vir com tantas restrições nos portos e aeroportos", compara Gastón, ressaltando que "os funcionários do restaurante também têm dificuldade para chegar ao local de trabalho".

Outro que foge da cidade é o taxista Julio Gómez (24) para quem o G20 representa bloqueios e a impossibilidade de circular. Julio decidiu antecipar alguns dias de férias, que tiraria normalmente em janeiro.

"O trânsito será caótico. Será necessário fazer mágica para ir de um lugar ao outro. As pessoas vão estar muito alteradas e vão transmitir esse mal humor ao motorista. Por isso, decidir antecipar uma viagem que faria em janeiro, durante as férias. Vou fazer agora e só volto na segunda-feira, depois que essa bagunça passar", avisou.