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Retirada das tropas da Síria cria dúvidas sobre a política americana para o Oriente Médio

Por RFI

A retirada das tropas americanas da Síria é mais uma mostra – desta vez, explícita, da discórdia entre os assessores da área de defesa da Casa Branca e o Donald Trump. Na quinta-feira, o secretário de Defesa americano, Jim Mattis, anunciou sua renúncia depois de alegar que tem visões irreconciliáveis com as do presidente. 

Nathalia Watkins, correspondente da RFI em Washington

Na quarta-feira (18), Trump anunciou que pretende retirar todos os 2000 soldados americanos do território sírio dentro de 30 dias. Apesar de haver sinalizado no passado não estar de acordo com a guerra, a decisão tomou muitos de surpresa, inclusive tradicionais aliados da Casa Branca.

O general Jim Mattis anunciou que deixará em fevereiro a administração do presidente Donald Trump. Especulações sobre a saída de Mattis começaram em outubro. Trump chegou a dizer em entrevista à CBS que o general era "um tipo de democrata" e talvez saísse. Mas a decisão foi tomada nesta quinta-feira (20), depois de uma última tentativa do militar de convencer o presidente a manter as tropas na Síria.

Em uma carta de duas páginas, Mattis rejeitou a visão de política internacional conhecida como América First, ou os Estados Unidos em primeiro lugar, que levou os americanos a desentendimentos com aliados como Alemanha, Inglaterra e Austrália. A retirada das tropas da Síria foi rejeitada pelo establishment da área de defesa, que teme o fortalecimento de terroristas na Síria. O poder de fogo do grupo Estado Islâmico foi drasticamente reduzido, mas estima-se que o grupo terrorista ainda tenha controle de uma porção do território na fronteira com o Iraque e que conte com aproximadamente 30 mil militantes.

Nova ordem mundial

Trump deu inúmeras provas de que rejeita as alianças e as estruturas de poder formadas após a Segunda Guerra Mundial, que foram mantidas intactas tanto por presidentes republicanos quanto por democratas, durante os últimos setenta anos. Mas analistas em Washington oferecem diferentes explicações para o anúncio repentino.

A primeira delas, citada em editorial do jornal The New York Times, seria desviar o centro das atenções das questões legais que assombram o presidente e ainda ganhar pontos com eleitores às vésperas do Natal. Outros acreditam que a medida foi um "afago" ao presidente Vladimir Putin, que certamente é um dos principais beneficiados pela escolha. Putin foi rápido em dizer que Trump tomou a decisão certa, apesar de ter questionado o significado do anúncio.

Segundo ele, os Estados Unidos prometeram a retirada das tropas do Afeganistão há anos, mas ainda não a concluíram. A Rússia terá, agora, mais terreno para expandir sua influência regional. A mudança de estratégia dos Estados Unidos abre um cenário de incerteza no Oriente Médio.

No ano passado, Mattis convenceu Trump a se comprometer com o envio de milhares de homens ao Afeganistão, onde os talibãs estavam massacrando as forças locais e registrando avanços. Mas este cenário agora parece ainda mais distante, uma vez que Trump prometeu também acelerar a saída do Afeganistão. Assim como aconteceu no Afeganistão, há o temor de que terroristas do Estado Islâmico também voltem a registrar avanços.

Teerã espera expandir domínio

Neste xadrez geopolítico, ganham a Rússia, o Irã e o Estado Islâmico. Teerã espera expandir seu domínio para regiões ocupadas por tropas americanas e Moscou diz sempre ter considerado a ação americana ilegal. Já tradicionais aliados, como Israel e os curdos, saem perdendo.

Durante os últimos três anos, os curdos foram protegidos, treinados e armados pelos americanos em um enclave no nordeste da Síria. Sem a proteção, eles enfrentarão ameaças turcas e sírias sozinhos. Já Israel, que alertou diversas vezes sobre presença iraniana em sua fronteira, avisou que irá intensificar os esforços para combater forças de Teerã.

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