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Venezuela: ditadura não pode resistir por tempo indeterminado

Por Alfredo Valladão

Até quando a ditadura bolivariana na Venezuela vai se aguentar? O país está de fato destruído, com uma economia em frangalhos e uma crise social praticamente inédita nas Américas.

Faltam remédios e até comida. A produção de petróleo é só uma sombra do que era. Um décimo da população já fugiu do país. O FMI prevê uma inflação de 1 milhão por cento! Os funcionários que ainda recebem algum vencimento – que vira pó em poucos dias – foram obrigados a aceitar metade do salário numa estranha cripto-moeda, um tal de “petro”, praticamente inegociável.

A vida política virou uma palhaçada, com eleições de mentira, um Judiciário às ordens, uma Constituinte sem prazo de validade, completamente dominada pelo partido do governo e criada só para marginalizar a Assembleia Legislativa ainda nas mãos da oposição. A máscara caiu: é ditadura militar mesmo.

Há muito que não dá mais para tapar o sol com peneira. Continuar ignorando a catástrofe venezuelana é tornar-se cúmplice de não-assistência a povo em perigo. Claro, depois das muitas experiências mal sucedidas para restabelecer a ordem e um governo democrático em países falidos, ninguém tem estômago para tentar resolver o problema da Venezuela com intervenções militares.

Forças de oposição não são favoráveis a soluções tão drásticas

Aliás, nem as forças de oposição, que ainda tentam sobreviver, são favoráveis a soluções tão drásticas: seriam mais um pretexto para Nicolás Maduro e seus asseclas para se fazer de vítimas do “imperialismo” e tentar mobilizar o reflexos nacionalistas dos venezuelanos. Uma saída para a Venezuela só pode vir de dentro. Mas vai ter que contar com uma ajuda dos outros governos da região.

Na verdade, os 3 milhões de refugiados venezuelanos que já procuraram asilo nos outros países da América do Sul, junto com os outros 5.000 por dia que deixam o país, estão se tornando um problema político e social sério para toda a vizinhança. A tradição diplomática latino-americana é respeitar as soberanias nacionais sem qualquer limite. Só que isso não é mais possível quando uma crise interna de um país começa a ter graves consequências para todos os outros.

Maduro não quer entregar a rapadura

O Grupo de Lima, que reúne 13 países latinos (mais o Canadá), foi constituído em 2017 justamente para tentar enfrentar o problema. A mudança de governo no Brasil abriu espaço para atitudes mais firmes com vistas a pressionar as autoridades de Caracas. Na recente reunião do Grupo, os países membros (salvo o México do novo presidente Lopes Obrador) decidiram acompanhar a Europa e os Estados Unidos e não reconhecer nem a última eleição fajuta de Nicolás Maduro à Presidência da República, nem o poder da Constituinte também eleita pela caneta presidencial.

O Grupo pede que a Assembleia Nacional, controlada pela oposição, exerça o poder e organize novas eleições realmente livres e democráticas. E criou um grupo de trabalho para determinar a possibilidade de expropriar bens e ativos no exterior de responsáveis bolivarianos.

A atitude já é um pouco mais enérgica do que as declarações de princípio do antigamente. Mas por enquanto, Maduro vai assumir a presidência no dia 10 de janeiro e não está nada disposto a entregar a rapadura. A ditadura bolivariana pode contar com alguns amigos: os serviços de inteligência cubanos que continuam administrando de fato o país, assim como os chineses e russos que, de maneira oportunista, estão dispostos a financiar parte das despesas da Venezuela contra o controle de seus recursos naturais, e também dar cobertura na ONU contra as iniciativas do mundo democrático.

O problema é que a catástrofe econômica e política é de tal ordem, que é provável que os venezuelanos afundem outra vez num clima de violência interna e que no final de 2019, 20% da população estará refugiada no exterior, ameaçando a estabilidade da região inteira. Muitos torcem por uma fratura nas Forças Armadas bolivarianas e um golpe democrático. Mas para a América do Sul, não vai ser fácil continuar só empurrando com a barriga.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica sobre geopolítica às segundas-feiras para a RFI

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