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Brasil será interlocutor dos EUA nas relações com Maduro, aponta pesquisador

Por Elcio Ramalho

Nicolás Maduro começa nesta quinta-feira (10) seu segundo mandato à frente da Venezuela. Contestado dentro e fora do país, ele assume por mais seis anos. A RFI conversou com João Carlos Jarochinski, professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima, que falou da situação venezuelana e de suas implicações para as relações com o Brasil.

“Tirando alguns países que ainda servem de suporte, como Bolívia ou Cuba, regionalmente a Venezuela vem sofrendo um processo de isolamento, que começou há dois anos, com as tensões relativas à Organização dos Estados Americanos (OEA) e à imposição de sanções contra o país, além da eleição de Donald Trump, com uma atuação mais efetiva da diplomacia americana contra o governo venezuelano”, ressalta o pesquisador, apontando que a posse de Maduro não deve mudar profundamente essa dinâmica diplomática.

“Esse isolamento não é novidade, mas, em termos regionais, ele não tem conseguido enfraquecer o governo de Maduro. Ele continua no poder, sob muita pressão, mas conseguiu levar a cabo o processo eleitoral”, continua Jarochinski. “As tentativas que são feitas, mesmo de um Tribunal Constitucional de fora de Venezuela, são muito fracas no sentido de estabelecer alguma forma de pressão. Do ponto de vista interno, ele ainda possui grande controle do país.”

Quanto ao Brasil, o analista aponta que, desde o governo do presidente Temer, a pressão ao governo venezuelano começou a aumentar. “Agora, há uma perspectiva de que Bolsonaro seja um participante mais efetivo do alinhamento regional. A aproximação com os EUA é uma tentativa de transformar o Brasil num interlocutor regional”, afirma.

O que deve ainda ficar mais claro, segundo Jarochinski, é a forma de estabelecer pressão contra o país vizinho. “Diplomaticamente, já houve um aumento no tom, na forma de se expressar. O chanceler e a equipe [de Bolsonaro] têm falado muito de uma ‘ditadura venezuelana’. Mas se isso vai resultar num possível auxílio de uma intervenção externa, com base na responsabilidade de proteger, ainda não ficou muito claro.”

Desafio militar

Outro ponto importante é o fato de que a Venezuela, mesmo que seja menor em termos populacionais, tem um efetivo militar quase equivalente ao do Brasil. “Isso geraria uma série de consequências. É um país que possui armamentos com razoável tecnologia, tem um acesso a um arsenal considerável, obviamente isso também é um outro fator”, ressalta.

O professor lembra que o território venezuelano é vasto, o que dificultaria um processo de intervenção. Além disso, é preciso levar em conta o fator migratório – em caso de conflito, haveria um maior fluxo de pessoas em direção ao Brasil. “Obviamente, se ocorrer uma intervenção, não será iniciada pelo Brasil. O país terá sempre um papel importante, mas obviamente o processo será capitaneado pelos Estados Unidos”, diz.

O Brasil também precisa levar em conta, de acordo com o analista, um possível prejuízo a longo prazo, em caso de intervenção na Venezuela. “Se pensarmos que a Venezuela pode se tornar a grande produtora de petróleo mundial, significa que o país vai passar necessariamente por uma reconstrução e criar uma imagem positiva em relação a isso”.

O Brasil perderia, então, a oportunidade de participar mais desse processo. “Em Roraima, 2/3 da energia consumida vêm da Venezuela. Qualquer ação que o Brasil tome, pode gerar retaliação com não fornecimento de energia”, explica. O petróleo também permite que a Venezuela mantenha bons termos com países pequenos e com grande demanda energética, como a região do Caribe.

Em relação à imigração, Jarochinski detalha que o número de venezuelanos que chegam ao Brasil é menor se comparado a outros países, ainda mais pobres, como a Colômbia. “O Brasil tem feito uma estrutura de acolhimento emergencial, com abrigos, alimentação… Mas ainda não existe uma política pública na integração dessas pessoas. E quando você não pensa nos próximos passos, isso tende a gerar consequências sociais. Hoje, há uma tensão entre brasileiros e venezuelanos”, afirma.

Apesar da saída do Brasil do Pacto da ONU para a migração, o pesquisador ressalta que será preciso pensar o fluxo venezuelano do ponto de vista regional. “Temos que tentar diminuir os fatores de expulsão, e coordenar uma resposta, para diminuir as consequências sociais, para aproveitar todo o potencial que essa migração oferece.”

Rússia como parceira estratégica

Nos últimos tempos, houve um aumento de vinculação com a Rússia da parte da Venezuela, com possibilidade de exercícios militares, de acordo com João Carlos Jarochinski. Além disso, houve uma tentativa de construção narrativa mais agressiva no cenário regional, com a mensagem de que “se os EUA tentarem fazer alguma coisa, temos o apoio da Rússia”.

“Para a Rússia, é bastante interessante, porque a Venezuela, apesar de todos os problemas, é a maior reserva de petróleo do mundo. Além disso, isso coloca a Rússia como uma influência numa área onde ela não tinha atuado nos últimos tempos. Com o declínio da União Soviética, ela tinha perdido esse contato mais forte com Cuba e não participava mais da interação regional. Então, é uma perspectiva de inserção de um espaço geopolítico importante”, analisa Jarochinski.

“Mas não imagino a Rússia comprando uma briga pela Venezuela. Ela faz essa diplomacia para mostrar força e angariar parceiros estratégicos, para se posicionar como um grande ‘player’ internacional. A Rússia sai dessa área da Eurásia e volta para a América Latina”, afirma. Por fim, com o fechamento de uma série de oportunidades para a Venezuela, a busca desse país para a compra de armamento e tecnologia militar tem tendência a se dirigir principalmente para a Rússia.

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