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Venezuela Hugo Chávez Nicolás Maduro Crise alimentar

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20 anos depois, Venezuela perde a fé na Revolução Bolivariana

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Presidente Nicolás Maduro discursa no palácio presidencial, em frente a retratos de Simón Bolívar, em outubro de 2018. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

O ano de 2019 marca os 20 anos da Revolução Bolivariana na Venezuela, mas pode também ser o ano do fim da era iniciada com o governo de Hugo Chávez, em 2 de fevereiro de 1999. Idolatrada pelas classes populares, a revolução anti-imperialista inspirada no líder Simón Bolívar hoje desencanta uma parcela crescente da população, refém de uma catástrofe econômica e social após três anos de profunda crise.


Não era isso que prometia a Constituição bolivariana idealizada por Chávez e adotada em seu primeiro ano de governo. A Carta Magna abria espaço para a democracia participativa e ampliava direitos fundamentais, como saúde e educação gratuitas para todos. A promessa de Chávez de, enfim, redistribuir as riquezas do petróleo do país levou grande parte dos venezuelanos, em especial os menos favorecidos, a idolatrar o novo presidente.

Sob o seu comando, os índices de desenvolvimento humano do país melhoraram, conforme a ONU. Passaram de 0,67, em 2000, para 0,76, em 2013 – ano em que a desenvolvida França, por exemplo, registrou a marca de 0,89. Os números de diminuição da pobreza, alfabetização e de acesso à saúde tiveram progressos igualmente louvados pelas Nações Unidas.

Porém as controvérsias começaram cedo - a oposição, representada pela elite tradicional venezuelana, denunciava a personificação do regime e a concentração crescente do poder nas mãos do líder bolivariano. Aos poucos, a classe média também perdeu as ilusões de uma sociedade mais igualitária sob Chávez. As nacionalizações generalizadas e desapropriações de terras, que se acentuaram com o princípio do fim da fase gloriosa do petróleo a US$ 100 dólares o barril no mercado internacional, assustaram a elite e acentuaram tentativas de golpe e rebeliões contra o presidente.  

Desencanto vai a outro patamar sob Maduro

Porém muitos dos que hoje viram as costas ao governo creditam a Nicolás Maduro o fracasso do ideal revolucionário. Desde que assumiu o poder em eleições contestadas, após a morte de Chávez, em 2013, Maduro ampliou ainda mais o próprio poder, amplificou o cerco à oposição – inclusive a ex-chavistas - e generalizou a prática da corrupção. O estilo ditatorial do herdeiro político também desagradou altos quadros do governo, que o acusam de perdem a ligação com o povo, que ele aos poucos deixou de ouvir e consultar.

Apoiadores de Nicolás Maduro levantam cartazes Simón Bolívar e Hugo Chávez, durante manifestação em Caracas, em 4 de agosto de 2017. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Enquanto isso, o país perdeu totalmente o controle da inflação a partir de 2017 – após o desmoronamento dos preços internacionais do petróleo, do qual depende 96% da economia venezuelana. A moeda nacional, o bolívar, passou a valer quase nada. Foi quando o sonho bolivariano desmoronou de vez e deu lugar à penúria de produtos de primeira necessidade, como alimentos e remédios.

Em 2019, a miséria, a falta de perspectivas e a ameaça de uma guerra civil fazem, cada vez mais, a aceitação popular se esvanecer. Um número jamais visto de venezuelanos deixou o país nos últimos três anos – já são 2,3 milhões de exilados, a maioria desde 2017, após o aprofundamento da crise. A ONU estima que, até o final deste ano, o êxodo vai atingir 5,3 milhões de venezuelanos.

Agora, os militares se portam como fiéis da balança em uma eventual transição política – eles que, desde o princípio, apoiaram Chávez e depois Maduro.

Polarização se espalhou pela sociedade

O jornal El País relembra que, em novembro, uma pesquisa do instituto Delphos indicou que 60% da população deseja ver no poder um líder político que não venha dos quadros chavistas. Outra sondagem, da Universidade Católica Andrés Bello, constatou que 25% dos entrevistados se diziam “chavistas insatisfeitos” e apenas 13% se consideravam “chavistas-maduristas”.

“Chávez incluiu toda uma parte da população, inclusive os indígenas, na política venezuelana, da qual sempre estiveram excluídos. Mas se a herança bolivariana está tão polarizada é porque a própria sociedade venezuelana vive essa polarização”, observou Franck Gaudichaud, pesquisador em Civilização Hispanoamericana na Universidade de Grenoble-Alpes, à emissora France Inter. O estudioso nota que, agora, a polarização agora atravessa as classes sociais. “É difícil estabelecer um balanço equilibrado do bolivarianismo, que teve muitos pontos positivos, mas muitos negativos. O fato é que hoje ele enfrenta uma crise sem precedentes, que vem de problemas estruturais do chavismo, como a corrupção, o nepotismo e o aumento da violência.”