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Cem empresários argentinos começam a depor no processo "Cadernos da Corrupção"

Por Márcio Resende

A partir de hoje e até o dia 11 de março, 101 empresários argentinos comparecem à Justiça para depor no processo "Cadernos da Corrupção", operação comparável à Lava Jato brasileira. O juiz encarregado do caso, Claudio Bonadio, intimou empresários da construção, além de ex-membros dos governos de Cristina Kirchner e do seu falecido marido, Néstor Kirchner, suspeitos de integrar uma associação ilícita liderada pela ex-presidente.

Correspondente da RFI em Buenos Aires

Cristina Kirchner vai enfrentar o tribunal no próximo dia 25 de fevereiro. O processo deve ter impacto nas eleições presidenciais de outubro. De um lado, o presidente Mauricio Macri se beneficia com o combate à corrupção, mas, ao mesmo tempo, sai prejudicado porque o caso complica a recuperação da economia do país.

A fase que se inicia hoje vai levar ao tribunal de seis a oito empresários por dia pelos próximos 26 dias, alguns considerados até então "intocáveis". Alguns vão depor pela segunda vez, mesmo já sendo "delatores premiados", como é o caso do empresário Ángelo Calcaterra, primo de Macri. Não se descartam novas prisões preventivas, a exemplo da primeira fase da operação iniciada em 1° de agosto passado, data a partir da qual dezenas de suspeitos foram presos, mas depois se tornaram colaboradores premiados.

Esta nova fase é consequência da delação do doleiro Ernesto Clarens, responsável pela engenharia financeira do suposto esquema de corrupção envolvendo os Kirchner. Em setembro passado, Clarens entregou ao juiz uma lista com os nomes das construtoras, das obras e dos montantes pagos em subornos. Ernesto Clarens é o equivalente argentino ao doleiro Alberto Yousseff, pivô da Lava Jato. Essa lista permitiu uma série de investigações. Em janeiro, o juiz determinou mais de 80 operações simultâneas de busca e apreensão de documentação nas construtoras em 14 províncias diferentes.

Imunidade parlamentar

Kirchner já está indiciada no processo. Ela voltará a ser interrogada, a partir de fatos novos, mas é acusada de liderar uma quadrilha que arrecadava, semanalmente, subornos milionários. Em setembro, a Justiça argentina decidiu processar a ex-presidente e atual senadora como chefe de uma associação ilícita que durante 12 anos usou o Estado para arrecadar propinas no maior esquema de corrupção da história argentina.

O juiz Claudio Bonadio pediu a prisão preventiva da ex-presidente, mas ela se protege por meio da imunidade parlamentar. Será a terceira vez que Kirchner deverá ir ao tribunal neste processo, mas a nona vez em todas as investigações realizadas até agora.

Benefício para Macri é incerto

O combate à corrupção traz benefício político para o presidente Macri, mas também prejudica o líder conservador em seu objetivo de se reeleger em outubro. O caso compromete uma provável candidatura de Kirchner, sua principal adversária na futura disputa, mas prejudica o atual governo porque atinge as principais empreiteiras argentinas, afetando a economia do país. O setor da construção seria o grande motor para a geração de empregos num ano eleitoral.

Outro problema é que a grande aposta do governo Macri eram as obras a partir do programa de parceria público-privada. Por questões de "compliance", os bancos privados e estrangeiros não podem financiar empresas envolvidas com corrupção. Com isso, as obras estão paradas na Argentina. A saída política para Macri é levantar a bandeira do combate à corrupção e da segurança pública, a exemplo do que aconteceu no Brasil.

Balanço da operação "Cadernos da Corrupção"

No próximo dia 1° de março, o caso "Cadernos da Corrupção" completa seis meses com um saldo, até o momento, de 48 processados, 20 presos e 27 delatores premiados envolvidos no circuito da corrupção nos contratos de obras públicas.

Nesse circuito, membros do governo Kirchner arrecadavam malas de dinheiro que eram depois entregues na residência presidencial oficial e no apartamento privado dos Kirchner, conforme revelaram as anotações do ex-motorista do Ministério do Planejamento Óscar Centeno. Semanalmente, uma grande quantidade de malas de dinheiro era transportada no avião presidencial para uma das casas que os Kirchner mantêm na Patagônia, em cujos subsolos instalaram gigantescos cofres.

O esquema começou em 2003, logo após a posse do ex-presidente Néstor Kirchner. Com a sua morte em 2010, as entregas passaram para Cristina Kirchner.

Atualmente, eliminado o fator corrupção, os preços para as obras públicas são 50% inferiores.

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