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Acordo entre China e EUA pode não ser bom para o resto do planeta

Por Alfredo Valladão

De repente, negociadores americanos e chineses aparecem sorridentes, alimentando o zum-zum de que um acordo comercial está à vista. Esse clima de “desta vez vamos”, já está animando as bolsas de valores e aqueles amedrontados com uma possível freada da economia global.

A queda de braço China/Estados Unidos, lançada por Donald Trump com uma série de medidas tarifarias unilaterais, é uma das maiores ameaças aos fluxos do comércio internacional.

Nesse enfrentamento das duas potências econômicas, quem mais tem a perder são os outros: a Europa e os países em desenvolvimento e emergentes. Todos ainda profundamente dependentes dos dois grandes mercados. Só que um acordo pode não ser uma boa noticia para o resto do planeta.

Tática de Trump

A tática negociadora de Trump é bem conhecida: bater primeiro, antes mesmo de começar, e depois pedir a lua. No final, se o interlocutor mostrar que tem alguma capacidade de resistir, chega-se a uma conciliação de interesses sem chutar o pau da barraca.

Nesse caso, as tarifas contra a importação de produtos chineses e as retaliações contra os produtos americanos tiveram um efeito assimétrico. Nos Estados Unidos, os produtores de commodities agrícolas e os consumidores de aço e alumínio foram os grandes perdedores.

Mas a China descobriu que não podia aguentar por muito tempo um conflito barra pesada, pois ainda precisa muito do mercado americano e da tecnologia de ponta “made in USA” para as suas indústrias mais avançadas.

Resultado: uma economia americana com problemas mas ainda bombando e uma economia chinesa freando a olhos vistos, obrigando as autoridades de Pequim a tentar segurar o crescimento com uma enxurrada de despesas e créditos públicos. Cavando ainda mais um déficit colossal.

A China não acabou

Claro, a China não acabou – longe disso. Mas, se quiser manter o seu dinamismo econômico e avançar nas novas tecnologias, vai ter de se arrumar com o gigante americano. Pode ser que, no frigir dos ovos, as concessões chinesas não precisem ser tão pesadas assim.

Afinal de contas, Trump também precisa de um acordo para a sua campanha eleitoral de 2020: uma recessão mundial, que levaria os Estados Unidos de roldão, não é o melhor argumento para uma reeleição. Mas o lourão da Casa Branca também precisa proclamar uma “vitória” sobre Pequim. Algumas de suas exigências vão ter que ser aceitas pelos chineses.

Por enquanto, Washington está exigindo uma maior abertura da economia chinesa para as exportações e investimentos, o fim da exigência de transferência de tecnologia para as empresas que querem entrar no mercado chinês e do roubo de tecnologias americanas, o respeito da propriedade intelectual e maiores importações de produtos americanos. Algumas dessas coisas vão certamente estar incluídas no acordo.

Mais importante ainda: o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, acaba de anunciar que os dois lados haviam concordado em estabelecer um mecanismo de implementação dos compromissos, “com dentes”. Permitindo a cada parte retaliar, unilateralmente, em caso de não cumprimento das obrigações pela outra.

Sistema bilateral, novas regras

Trata-se do primeiro sistema bilateral, juridicamente vinculante e dissuasivo, aplicado a acordos comerciais. Uma ferramenta que marginaliza o famoso “tribunal” da Organização Mundial do Comércio que Trump quer sabotar.

Na verdade, esse possível acordo entre duas das principais economias do planeta está a ponto de estabelecer as primeiras regras dos intercâmbios comerciais da nova revolução industrial e tecnológica. Regras que todos os outros vão ser obrigados a engolir.

Os europeus, correndo atrás da inovação tecnológica e tentando impor sua própria visão da regulamentação global, são os primeiros na linha de mira. Os países exportadores de commodities dependentes da China também vão sofrer.

E todos os espectadores da briga Trump/Xi Jinping vão ter que amargar a extensão da brecha cada vez mais larga entre os donos da modernidade econômica e os que tentam, ofegantes, manter-se no páreo.

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