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Análise: Trump quer “atacar Venezuela hoje e derrubar Cuba amanhã”

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Nesta quinta-feira (2), presidente Nicolás Maduro fez questão de mostrar o apoio que conta das Forças Armadas, após cerca de 100 desertarem e se unirem ao opositor Juan Guaidó. Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Os últimos dias marcam uma nova guinada na crise venezuelana, depois que o presidente autoproclamado Juan Guaidó lançou uma ofensiva para pressionar o presidente Nicolás Maduro a sair do poder. Apesar das trapalhadas que marcaram a ação, o opositor mantém o apoio firme dos Estados Unidos. O diretor de pesquisas sobre a América Latina do Iris (Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas) Christophe Ventura não tem dúvidas: o principal objetivo do presidente americano Donald Trump é acabar com o regime de Nicolás Maduro na Venezuela para, em seguida, derrubar o governo cubano.


“Os dois casos são indissociáveis para Washington”, sublinha. Na opinião do analista, a proximidade do fim do mandato faz Trump correr contra o tempo para conseguir o troféu de por um fim aos dois últimos regimes latino-americanos associados ao socialismo.

“O verdadeiro objetivo de Trump é derrubar Cuba – tanto que um dos principais argumentos dele é acusar Havana de intervir na política venezuelana”, afirma Ventura. “Não foi à toa que ele ameaçou Caracas de um embargo total na véspera de Guaidó lançar essa nova tentativa de assumir o poder.”

As sanções impostas por Washington a Caracas provocam duras consequências à fragilizada economia venezuelana. Trump determinou o embargo das transações petrolíferas com o país, atingindo em cheio a principal riqueza econômica dos venezuelanos. O aprofundamento da crise, em uma situação social e humanitária que já é catastrófica, deve forçar ainda mais o regime de Maduro a apresentar uma solução.

Estratégia é semear o caos

Os Estados Unidos não escondem que podem realizar uma intervenção militar na Venezuela, porém o especialista francês nota que as condições ainda não estão reunidas. Por enquanto, frisa, o plano é “estimular um clima de guerra civil”. “A estratégia é essa: repetir as imagens de afrontamentos generalizados, entre vários setores, um pouco como ocorreu na Líbia - guardadas as proporções, evidentemente. Isso poderia justificar a intervenção de forças estrangeiras, com Estados Unidos em primeiro plano”, explica.

A ofensiva em curso de Guaidó foi claramente improvisada: o opositor se precipitou ao avaliar que conseguiria chegar ao palácio de Miraflores com o apoio de apenas uma centena de militares. Nesta quarta-feira (1º), ele convocou uma greve geral, cuja adesão dos trabalhadores é incerta. No entanto, o objetivo de aumentar a instabilidade do país ganhou pontos.

“Não vimos uma tentativa de golpe, mas sim uma vontade de balançar tudo. Guaidó e seus aliados querem dar a entender que não há um retorno possível”, indica Pascal Drouhaud, vice-presidente do Instituto Choiseul, consultoria francesa especializada em América Latina. “A maior mudança foi que, pela primeira vez, mais militares apareceram claramente ao lado de Guaidó e isso pode marcar uma virada.”

Militares ganham ainda mais poder

O coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp, Luis Fernando Ayerbe, ressalta que, mais do que nunca, a solução da crise parece passar pela atuação das Forças Armadas. “Até agora, o que se desenhava era que uma eventual transição política teria como principal protagonista o Guaidó, com o apoio do Grupo de Lima e a atuação dos Estados Unidos, com as sanções. Essa via se enfraqueceu porque houve uma grande aposta de uma divisão interna na Venezuela, que não se configurou”, explica Ayerbe.

“Agora, os militares vão tomar para si o comando de qualquer mudança, mesmo que com a eventual saída de Maduro. A oposição subestimou o poder da cúpula militar, que não quer sair como derrotada, já que isso significaria incertezas sobre o próprio futuro e quanto ao seu lugar na sociedade venezuelana", nota o professor da Unesp.

Apesar de mal planejada, a ofensiva de Guaidó acaba por forçar o governo a dar uma resposta à crise. Os próximos dias devem ser decisivos nesse sentido. O especialista não descarta um golpe militar, mas avalia que as alternativas mais prováveis envolvem a participação do presidente chavista. “É possível que Maduro fique com um menor controle do poder e a maior parte fique com os militares. Eles também podem fazer uma negociação interna pela qual Maduro renuncia ou convoca novas eleições”, avalia Ayerbe.