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Nicarágua Ditadura Daniel Ortega Sandinismo

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Nicarágua: 40 anos depois do triunfo sandinista, um retorno ao passado?

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Apoiador do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, celebra os 40 anos da "Repleiegue" em Manágua. Fuente: Reuters.

A história se repete na Nicarágua, onde se celebram nesta sexta-feira (19) os 40 anos da tomada de Manágua pelos guerrilheiros sandinistas, um evento que marcou o fim da ditadura de Somoza e o triunfo dos revolucionários da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Hoje o partido é quase hegemônico no país, com a mão de ferro de Daniel Ortega na liderança. É o que uma ex-guerrilheira sandinista denuncia, em entrevista à RFI. Retorno ao passado ditatorial?


Por Raphael Morán

Em 19 de julho de 1979, após vários meses de luta, os guerrilheiros sandinistas nicaraguenses, cujo nome evoca a memória do revolucionário Augusto César Sandino no início do século, tomaram a capital Manágua. Naquele dia, a ditadura do clã Somoza, que dominou a vida política nicaraguense por mais de quatro décadas com mãos de ferro, finalmente desmoronou.

Mónica Baltonado, um dos comandantes que lideraram a guerrilha sandinista em Manágua, lembra daquele dia. Como o ditador Anastasio Somoza havia partido de Manágua, os guerrilheiros não tiveram "grandes combates, mas alguns confrontos nos arredores". Mas no dia 19 de julho entramos no quartel principal e na casa presidencial ocupada por Somoza ", lembra ela.

Dos ideais da revolução sandinista, Baltodano recorda o seguinte: "Além do fato de que queríamos sair de uma ditadura que fraudou eleições e implantou no país um modelo capitalista profundamente concentrado na riqueza, nossos ideais não eram nada além de tirar Somoza, e transformar a Nicarágua em um regime democrático com justiça social", conta.

Os ideais sandinistas

"Queríamos erradicar o latifúndio, prometemos uma reforma agrária, urbana, para combater a prostituição, a discriminação contra as mulheres. Eram ideais que tinham uma orientação socialista, mas ao mesmo tempo reivindicavam uma economia mista e um pluralismo político. Nós não queríamos um partido único", diz a ex-guerrilheira.

Mónica Baltonado, que serviu como ministra de Assuntos Regionais no primeiro governo de Ortega na década de 1980, tornou-se uma das vozes críticas a seu regime, que ela acusa de acabar com os ideais sandinistas.

Cumplicidade do setor privado

Sob a presidência de Daniel Ortega, que governa o país desde 2007, a Nicarágua parece ter voltado aos anos 1970. O regime de Ortega controla todas as esferas de poder, reprimiu severamente os protestos no ano passado e concedeu concessões e benefícios fiscais para as grandes empresas.

"O setor privado, os grandes setores capitalistas na Nicarágua, dominados por três famílias em particular, incluindo Carlos Pellas, são profundamente culpados pelo que está acontecendo na Nicarágua", denunciou em Paris a nicaraguense Bianca Jagger, ex-mulher do astro dos Rolling Stones Mick Jagger e defensora dos direitos humanos, através da fundação que leva seu nome.

"Eles fizeram pactos com Daniel Ortega. Eles permitiram a Ortega desmantelar as instituições e mudar a Constituição para ser presidente para o resto da vida. Para eles, o importante eram as vantagens concedidas por Daniel Ortega", disse Jagger à RFI. Com mais de 60.000 exilados, 325 mortos e centenas de prisioneiros políticos libertados a conta-gotas, o governo de Daniel Ortega reprimiu os grandes protestos no ano passado.

Mas a crise econômica e a pressão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e dos Estados Unidos já o levou de volta a sentar e negociar com a oposição, sem obter no entanto uma solução para a democratização do país.

Em sua sua resolução de 28 de junho, a OEA aprovou uma resolução que pediu ao governo Ortega "permitir a entrada da Comissão Interamericana de Direitos Humanos" e outras organizações internacionais. O órgão também reiterou sua "preocupação" com a "deterioração das instituições democráticas" e a violação dos "direitos humanos" na Nicarágua