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Assassinatos em massa contribuem para clima de desunião nos EUA

Por RFI

Neste último fim de semana, em um período de cerca de 12 horas, os Estados Unidos foram vítimas de dois assassinatos em massa, em El Paso, no Texas, e em Dayton, em Ohio. Os dois massacres aconteceram menos de uma semana depois de um atirador ter aberto fogo em um festival gastronômico em Gilroy, na Califórnia, deixando três mortos e 11 feridos.

Lígia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Além de deixarem mortos e feridos, essas tragédias estão contribuindo para o clima de desunião que paira sobre o país. Nos últimos anos, a animosidade entre grupos de afiliações políticas diferentes – representados principalmente por republicanos e democratas – só tem aumentado. Embora causem sofrimento à sociedade, geralmente, as tragédias pelo menos servem para unir a população. Um exemplo disso é o ataque terrorista de 11 de Setembro, quando, ao menos por um tempo, a nação americana formou uma frente única, deixando as antipatias políticas de lado. No ambiente atual, entretanto, tudo leva a mais brigas políticas.

Imediatamente depois dos dois últimos massacres, as redes sociais foram inundadas de acusações venenosas entre liberais e conservadores, com os políticos usando as tragédias para se promover e atacar oponentes, enquanto que os lobistas a favor e contra o controle de armas não perdiam tempo em se manifestar. Esses tipos de reações são esperadas, e a discussão sobre o direito ao porte de armas - garantido pelo segundo artigo da constituição americana - e o que ele hoje realmente deve significar e englobar é mesmo importante. No entanto o tom, por parte dos dois lados, está menos humano e mais político, sem dar uma pausa para que a população possa primeiro lidar com o luto.

Trump, até agora, respondeu, de modo geral, de forma correta às tragédias. Ele foi enfático ao dizer que a nação precisa se unir para condenar o racismo, preconceito e, especificamente, a ideologia da supremacia branca. Foi importante o presidente americano ser específico, pois, além de ter sido acusado de não ter condenado, em 2017, os participantes de um grupo neonazista que causaram confrontos e uma morte, em protestos, em Charlottesville, no estado da Virgínia, seus inimigos políticos agora o acusam de ser culpado pelos recentes massacres. Na verdade, Trump, em 2017, disse que “condenava totalmente” os neonazistas e, mesmo com todos os seus defeitos, é injusto colocar a culpa de um tipo de massacre que, há décadas, faz parte da cultura americana em um só político, independentemente de sua plataforma ou partido.

Ideais racistas e xenófobos

O atirador de El Paso havia postado um manifesto no website 8chann, com ideais racistas e contra imigração, especialmente hispânica. O discurso de Trump, quando fala de imigrantes da América Latina que cruzam a fronteira ilegalmente, é repleto de termos como “invasão” e geralmente liga esses imigrantes ao aumento de crime. Isso pode incitar preconceito e ódio ao “invasor”. Mas há indícios de que o atirador de Dayton promovia ideais socialistas e apoiava os candidatos democratas à presidência Elizabeth Warren e Bernie Sanders, além de, possivelmente ser membro do grupo extremista de esquerda, Antifa. Os conservadores aproveitaram essas informações preliminares sobre o atirador de Dayton para apontar o dedo para os democratas que, por sua vez, acusavam Trump de ser responsável pelo aumento do ódio na sociedade.

De modo geral, o que esses atiradores têm em comum é que, quase sempre, são jovens do sexo masculino e, na maioria, cidadãos americanos brancos. Mas esse fenômeno americano de atiradores e assassinatos em massa parece ser mais difícil de ser resolvido do que algo que envolva um único fator ou culpado. Se a sociedade americana quer, de fato, por um fim a esses massacres, será preciso ter um diálogo franco e abrangente para encontrar soluções multifacetadas para um problema tão complexo.

Cantos escuros da internet

Para combater massacres, Trump pediu que o FBI identificasse todos os recursos necessários para investigar crimes de ódio e terrorismo, incluindo investigar o que ele chamou de “os cantos escuros” da internet. Isso fez com que muitos logo reclamassem nas redes sociais de um possível abuso da vigilância por parte do governo. O presidente americano também apontou os videogames violentos como uma das causas de massacres. A indústria de videogames também, imediatamente, se manifestou contra a declaração. Segundo estudos, não há um consenso sobre o impacto da exposição a videogames violentos sobre o nível de agressividade ou capacidade de socializar de seus usuários. Trump também focou em melhor identificar e tratar doenças mentais como uma das maneiras de evitar massacres.

As medidas propostas são válidas, mas os democratas acreditam que não são suficientes e reclamaram que o presidente não teve coragem de enfrentar a poderosa NRA (National Rifle Association), o grupo de lobby pelo direito ao porte de armas de fogo, deixando de pedir um maior controle da venda e do porte de armas. Sem dúvida, esse é um tópico que precisa ser discutido pelos americanos na busca pelo fim das mortes por armas de fogo, que vão muito além de assassinatos em massa. Em 2017, 40 mil mortes foram causas por armas de fogo nos Estados Unidos, incluindo assassinatos e suicídios.

Uma das propostas com apoio bipartidário é a de uma legislação que incentive os estados a adotarem leis, conhecidas como “red flag”, possibilitando que a polícia ou parentes peçam que a justiça não permita que pessoas suspeitas de representarem um risco à própria vida ou à vida de outros tenham acesso a armas. Segundo dados do Pew Research Group, 30% dos americanos possui uma arma e um pouco mais da metade da população (57%) acha que as leis de controle do porte de arma devem ser mais severas.

Mas, mesmo nesse ambiente de discórdia e independentemente de ideologia ou partido, os americanos compartilham de um sentimento: o medo de que, enquanto o controle ao porte de armas e outras soluções estão sendo mais uma vez debatidas e não de fato executadas, os massacres continuarão a fazer parte da sua realidade.

 

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