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Argentina: peronista Alberto Fernández pode vencer eleições presidenciais no 1° turno

Os argentinos vão às urnas no próximo domingo para o primeiro turno das eleições para presidente e também para eleger metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado. Não há pesquisa de intenção de voto que não indique uma vitória arrasadora do candidato peronista Alberto Fernández, contra quem o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, fez campanha. Mesmo assim, o presidente Mauricio Macri acredita que pode chegar ao segundo turno.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Todos os analistas políticos são unânimes: é altamente improvável uma virada de Mauricio Macri. Assim, o que está em jogo é menos quem vai ganhar e mais quem realmente vai governar e como vai governar.

No total, são seis candidatos, mas Alberto Fernández e Mauricio Macri juntos têm cerca de 87% das intenções de voto, revelando que a eleição se polarizou, deixando este primeiro turno com cara de segundo.

Todas as pesquisas apontam para uma vitória do peronista Alberto Fernández entre 15 e 20 pontos acima do presidente Mauricio Macri.

Pela sondagem do consultor e analista político Jorge Giacobbe, por exemplo, Alberto Fernández tem 51,3% dos votos válidos contra 36,3% de Mauricio Macri. O ex-ministro da Economia (2002-2006), Roberto Lavagna, chega a 6,4%.

"O voto anti-Macri não esperou o segundo turno para castigar Macri. Apareceu agora, polarizando a eleição", explica à RFI o analista Jorge Giacobbe, que observa outro fenômeno que só acontece com aquele que vai ganhar as eleições.

"Ao longo dos meses, pedimos aos eleitores que definissem cada candidato com uma palavra. A palavra mais escolhida para Macri foi 'inútil', para Cristina 'corrupta', mas para Alberto foi mudando e agora é 'esperança'. Isso só acontece quando começa um processo de idealização com um candidato", revela Giacobbe.

Na Argentina, ganha-se no primeiro turno com apenas 45% dos votos ou mesmo com 40% desde que haja uma diferença de dez pontos com o segundo colocado. Alberto Fernández, portanto, ganha com as duas variáveis.

Composição de blocos parlamentares

A pesquisa de Raúl Aragón aponta a uma vitória de Alberto Fernández com 52,4% enquanto Mauricio Macri fica com 34,4% e Roberto Lavagna, com 8,2%.

"O que está em jogo agora já não é mais a presidência, mas a composição dos blocos parlamentares. Como ficará o Poder Legislativo? Tudo indica que Alberto Fernández atingiria o quórum próprio, mas com aliados", antecipa à RFI Raúl Aragón.

De um modo geral, a sociedade argentina está dividida em três terços: um é de Macri, outro, de Cristina Kirchner e o terceiro oscila de um lado para o outro, castigando aquele de quem se quer uma mudança.

Em 2015, castigou Cristina Kirchner; agora castiga Macri. E castiga o presidente pelos números da economia: uma forte recessão combinada com uma altíssima inflação: 53,5% de inflação nos últimos 12 meses. O nível de pobreza subiu de 29 a 35,4% durante o mandato de Macri e que deve fechar o ano perto dos 40%. O desemprego chegou a 10,6%.

O voto em Alberto Fernández concentra-se justamente nos segmentos baixos, os mais afetados pela inflação, mas também nos 5% da sociedade argentina de classe alta que queriam de Macri um governo liberal que não foi, protegendo as empresas e fortalecendo a economia fortalecida.

Mas a recessão encolheu o mercado, a inflação acabou com o poder de compra e a desvalorização de 300% da moeda argentina reduziu pela metade o valor das empresas. Para evitar uma disparada ainda maior do dólar, a taxa de juros foi a 70%, paralisando a economia. Além disso, Macri promete abrir a economia ao livre mercado, como o acordo comercial com a União Europeia, que Alberto Fernández promete rever.

"O empresário argentino tem um discurso liberal, mas depois quer que o Estado o proteja", analisa Giacobbe.

Macri x Fernández

O voto em Macri concentra-se nas classes médias (média-baixa, média tradicional e média-alta). Se ele não pode exibir conquistas econômicas, tem transparência na gestão, inserção da Argentina no cenário internacional, combate ao tráfico de drogas e a corrupção, liberdade de expressão e grandes obras públicas.

O presidente argentino apostou em caravanas que tinham como objetivo recuperar o voto da classe média, setor onde se concentram os chamados "desencantados": aqueles que elegeram Macri, mas que se decepcionaram a ponto de votar na oposição. As caravanas foram um surpreendente sucesso de público.

"Eu voto em Macri porque defendo os valores republicanos. Não gosto de quem quer impor uma ideia, de quem diz defender os pobres, mas depois rouba dos pobres que votam neles, apesar da corrupção, porque são manipulados", dispara a professora de filosofia e escritora Graciela Tocce, de 62 anos, no meio de uma marcha de Macri.

"Votei em Macri, mas a mudança foi para pior. Não se vê um progresso. Antes, com Cristina, encobriam-se muitas coisas. Eram todas mentiras. Nenhum dos dois me convence. Não são pessoas que realmente se preocupem com a necessidade dos que não têm. Estou muito indecisa", desabafa Blanca Arriguria, de 53 anos.

Votos anti-Macri e pró-Cristina

Cerca de 38% dos votos em Alberto Fernández são de Cristina Kirchner. O restante são de pessoas que votam contra Macri.

"Muitos eleitores são anti-Macri, mas tinham vergonha de votar em Alberto Fernández porque é um voto em que Cristina aparece. Essa gente argumenta que Alberto Fernández é diferente de Cristina, que é moderado e que quem vai governar é ele", conta o analista político Jorge Giacobbe.

"Algumas vezes, eu discuti com Cristina por assuntos de governo. Os ministros se surpreendiam que eu me atrevesse a discutir com ela porque 'com Cristina não se discute; só se escuta' e isso o Alberto Fernández sabe perfeitamente. Os votos são de Cristina Fernández. Será Cristina Fernández e os que a rodeiam os que vão mandar", afirma o analista político José Nun, ex-secretário de Cultura entre 2004 e 2009.

Cristina Kirchner responde em 11 processos por corrupção e tem sete pedidos de prisão preventiva só não cumpridos graças à imunidade parlamentar do seu cargo de senadora. A partir de 10 de dezembro, deverá ser a vice-presidente, cargo que, na Argentina, preside o Senado.

Politização da Justiça

Nas últimas semanas, a Justiça soltou uma dezena de presos por corrupção durante o governo de Cristina Kirchner. Além disso, o único processo em julgamento, referido à corrupção em obras públicas, foi adiado até depois das eleições.

Numa advertência à Justiça, o próprio Alberto Fernández já disse que "muitas sentenças ditadas nos últimos anos devem ser revistas" e que "Cristina é vítima do sistema judicial".

"A Justiça na Argentina atua em função de quem está no poder. Vemos isso claramente. Enquanto os ventos sopram para um lado, investigam o que ficou atrás. E quando esse vento muda, como estamos vendo agora, rapidamente se modifica o sentido das decisões. Há uma enorme politização. Caso contrário, isso não poderia acontecer", observa o advogado constitucionalista Daniel Sabsay.

"13% dos argentinos acreditam que durante o kirchnerismo não houve corrupção. E outros 38% dos argentinos acreditam que, durante o kirchnerismo, houve corrupção, mas que governaram melhor do que agora", destaca Jorge Giacobbe. 

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