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Para jornal Le Monde, brasileiros não valorizam o lazer e as férias

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Apenas 6,2 milhões de turistas deixaram o solo brasileiro em 2013, diz reportagem do jornal francês Le Monde. Wikimedia Commons

A edição deste sábado do jornal francês Le Monde traz uma reportagem de seu correspondente no Rio de Janeiro, o jornalista Nicolas Bourcier, que avalia o conceito de férias para os brasileiros. O Brasil, “um país de sonho e de férias”, é onde a população não valoriza suficientemente o lazer, diz ele.


“Difícil de imaginar uma terra mais turística, mais verde, rica de praias de areias brancas, de costa infinita e natureza selvagem”, descreve Bourcier. Mas, para ele, o número de brasileiros que partem do país em férias ainda é pequeno. “Apenas 6,2 milhões de turistas deixaram o solo brasileiro em 2013. É dez vezes menos do que na Espanha. Quase cinco vezes menos o número de turistas que vieram a Paris em 2012”, observa.

O correspondente conversou com especialistas que o ajudaram a desvendar as razões para este fenômeno. “Como poderia ser diferente? Nós somos o país do trabalho”, diz o sociólogo e professor da Universidade de Campinas, Ricardo Antunes, em entrevista ao Monde. Os motivos, de acordo com Bourcier, são a falta de infraestrutura, o estado catastrófico das estradas, os transportes deficientes, e os altos custos da hospedagem.

A matéria aponta que, embora a classe média brasileira venha se abrindo ao mercado de turismo e lazer, o número de brasileiros que tiram férias ainda é muito baixo. De acordo com as previsões do ministério brasileiro do Turismo para este ano, haverá 6% de aumento no número de vôos domésticos ou o total de 215 milhões de bilhetes aéreos comercializados. “Um pouco mais de uma passagem por habitante em um país vasto, onde o transporte por trem quase não existe. Como explicar este fenômeno?”, questiona o correspondente.

As explicações relevam fenômenos da época do Brasil colonial, além de razões relacionadas à religião. “Três séculos de herança colonial e de escravidão, abolida em 1888, ainda marcam as consciências coletivas, deixando pouco espaço para a consciência do ‘tempo livre’, defendida na Europa durante este mesmo período”, ressalta o entrevistado Ricardo Antunes.

“Os salários baixos, a moral cristã - sempre presente com seu gosto pelo sacrifício - e o esforço no trabalho, conjugados com o preconceito de não perder tempo, formam uma mistura que não favorece a consideração pelas férias”, completa a professora da Universidade de Minas Gerais, Christianne Luce Gomes, responsável pelo departamento de estudos consagrados ao lazer.

O correspondente conclui que o brasileiro não tem a cultura das férias, já que com os salários de um pouco mais de mil reais, a orientação da economia para as atividades de serviço, a população continua trabalhando para adquirir bens materiais, e não aproveita suficientemente o lazer. Além disso, 50% dos brasileiros exercem uma segunda atividade, geralmente informal, para completar a renda mensal, observa o jornalista francês.

O correspondente termina a matéria com uma citação do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou o trabalho como “uma coisa quase mágica, quase maravilhosa”. “Jamais nos sentiremos mais cidadãos que com um trabalho que nos permite a cada mês de alimentar nossa família”, teria dito o ex-presidente petista.

“A fronteira entre a folga e o trabalho se tornou completamente difusa, ao ponto que a expressão ‘lazeres sérios” ou ‘produtivos’, se origem norte-americana, progride no Brasil há anos”, observa um dos diretores da Organização Mundial do Lazer, Ricardo Ricci Uvinha. “Um paraíso de tristeza”, segundo o jornalista, e uma ideia que sobreviverá ainda muito tempo na sociedade brasileira.