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“No Brasil, não saio na rua de bermuda para não ser confundido com marginal”

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Serge Katembera é um jornalista do Congo que estuda na Universidade Federal da Paraíba. Desde 2013, ele escreve suas impressões como um estrangeiro vivendo no Brasil para o projeto RFI MondoBlog, que reúne blogueiros do mundo todo escrevendo em francês. Alguns de seus posts serão publicados em português, aqui no site da RFI Brasil, ao longo das próximas semanas.


Faz sete anos que eu vivo no Brasil em total segurança e no exercício pleno das minhas liberdades individuais. Nunca vi um crime de grandes proporções, nunca tive uma arma apontada para a minha testa. Apesar disso, o Ministério das Relações Exteriores da França classifica o Brasil na categoria “vigilância reforçada, zonas desaconselhadas”, que inclui países que devem ser evitados.

Classificações devem sempre ser relativizadas. Seja uma classificação das melhores universidades, como a de Xangai - mas sob quais critérios? - ou a classificação dos países mais ricos - mas qual riqueza? - ou ainda a dos países livres - qual liberdade de expressão?

Pessoalmente, prefiro confiar mais na opinião das pessoas que vivem no lugar do que na avaliação de alguma agência internacional, mesmo quando ela tem resultados de uma pesquisa de campo. No entanto, o cotidiano é bem mais complexo que um simples mapa interativo, como este feito pelo site Décodeurs, do jornal Le Monde.

No Brasil, quando se fala de morte violenta, os negros morrem bem mais do que os brancos. E eles são vítimas de excessos da polícia com tanta frequência que podemos dizer que o Brasil não é tão diferente dos Estados Unidos na relação entre raça, assassinato e violência policial.

Shopping centers

Com a “ajuda” dos estereótipos, a polícia é mais repressiva contra os jovens nos bairros pobres – as famosas favelas. Jovens que vestem bermudas, sem camisa e que tem o curioso hábito de “invadir” os shoppings centers, que em geral são reservados à classe média.

Há sinais que não enganam. E, paradoxalmente, também é fácil se esconder na multidão. Eu nunca saio na rua de bermuda por medo de ser confundido com um marginal. Não sei em que medida essa precaução é uma forma de prudência ou se ela contribui a reproduzir os preconceitos. Mas o fato é que funciona.

Em centenas de cidades, como em João Pessoa, não há batidas policiais, mas não é o caso das grandes cidades. Em Belo Horizonte, por exemplo, os negros são sistematicamente abordados…

As últimas estatísticas oficiais dizem que João Pessoa é a cidade mais violenta do Brasil. Confesso que não vejo essa violência no cotidiano. Como falei, acho que as estatísticas devem ser relativizadas. Talvez ela seja de fato violenta proporcionalmente ao número de habitantes: 67 homicídios por 100 mil habitantes, segundo os dados oficiais, o que faz de João Pessoa a 9ª cidade mais violenta do mundo.

Violência em guetos

Mas repito, essa violência é concentrada nos bairros que eu não frequento, a violência urbana fica nos guetos. E também há a questão da proporção, como já escrevi. Uma coisa é a violência urbana real, outra é a sensação dos habitantes. As estatísticas não mostram esta diferença.

Como podemos comparar a violência urbana do Rio de Janeiro com a de João Pessoa? Não foi no Rio que um helicóptero da polícia civil foi abatido por traficantes de droga? Pois então, acredita nos números que você quiser…

Há também a questão dos jornalistas. Foi também no Rio de Janeiro que um jornalista da rede de TV Band foi morto quando cobria uma manifestação. De várias maneiras, o Brasil pode ser tão perigoso para jornalistas quanto um país em guerra.

É claro que eu não quero contradizer as estatísticas oficiais e muito menos desencorajar os turistas - isso já é feito pelo Ministério das Relações Exteriores da França -, mas é melhor, na minha opinião, visitar as cidades do nordeste do que São Paulo ou Rio de Janeiro.

Afinal, eu não tenho nem dinheiro nem poder para lutar contra as estatísticas...

 

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