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Assassinato Ghislaine Dupont Claude Verlon Jornalistas Violência Mali

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RFI lembra 2 anos da morte da repórter Ghislaine Dupont e do técnico Claude Verlon

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O técnico Claude Verlon (E) e a repórter Ghislaine Dupont, funcionários da RFI assassinados no Mali em 2013. RFI

 Neste 2 de novembro, declarado pela ONU Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes Cometidos contra Jornalistas, a Rádio França Internacional (RFI) lembra os dois anos da morte da repórter Ghislaine Dupont e do técnico Claude Verlon, sequestrados e executados no norte do Mali. O Aqmi, braço da rede Al-Qaeda no norte da África, reivindicou o duplo assassinato na época, mas a investigação não avançou desde então. Os familiares das vítimas ainda aguardam que o caso seja esclarecido.


No dia 2 de novembro de 2013, os enviados especiais da RFI ao norte do Mali foram sequestrados e depois mortos nos arredores de Kidal. Na época, a repórter e o técnico preparavam uma série de reportagens sobre as eleições legislativas no país.

Uma investigação judiciária foi aberta no final de 2013, mas até hoje ninguém sabe quem foram os autores dos crimes nem as circunstâncias em que os dois profissionais foram executados.

Segredo de defesa

Além da complexidade do caso, outro grande obstáculo é a lentidão da administração e da justiça francesas em relação ao chamado "segredo de defesa". O juiz encarregado do caso fez o pedido para desclassificar os documentos. O mesmo foi prometido pelo presidente francês, François Hollande, aos familiares. No entanto, até agora nada foi feito, e o pedido não será analisado na próxima reunião da comissão responsável pelos segredos de defesa do Estado.

Opositores do governo Hollande não poupam críticas sobre a demora para que o processo avance. Entrevistado pela RFI, o senador do partido Republicanos Gérard Longuet, disse: "Há uma lentidão excessiva. Isso me impressiona porque o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, está a par do problema. Mas há um descaso, ou um esquecimento, que é revoltante".

O ministério da Defesa se defende e diz que não há um atraso particular, salientando que o trabalho está sendo feito. Através de seu porta-voz, Pierre Bayle, Le Drian garante que o governo francês está engajado na desclassificação dos documentos.

Mas, de acordo com um dos advogados da defesa, Christophe Deltombe, o exército francês estaria se recusando a entregar os documentos à justiça. "É grave e contraditório em relação às declarações de François Hollande", protesta.

Perguntas ainda sem respostas

"Há questões sem respostas nas investigações", ressalta outra advogada da defesa, Caty Richard. Ela salienta que a principal é o espaço de tempo entre o horário da descoberta dos corpos de Ghislaine Dupont e de Claude Verlon e a hora em que as informações sobre a morte deles começaram a circular. Ela reclama também da existência de conversas telefônicas gravadas falando das vítimas, às quais a defesa não teve acesso.

Outras dúvidas pairam sobre o caso, como a ausência de evidências no local do assassinato. "Enquanto não soubermos o que aconteceu, as famílias não poderão descansar porque essa atitude por parte do governo deixa dúvidas, começamos a imaginar muitas coisas. E precisamos saber o que aconteceu", declarou a ex-companheira de Claude Verlon, Dominique Raizon.

Mais perguntas permanecem sem respostas em relação à operação realizada pelas tropas francesas no local do crime, nos meses após os assassinatos. "Sabemos que houve uma intervenção do exército em fevereiro de 2015 contra um grupo armado nos arredores de Kidal, mas não conhecemos os resultados dela. Aquele que reivindicou os sequestros de Ghislaine e Claude foi morto pelos soldados franceses. Mas quem agiu com ele? Impossível saber sem a desclassificação do caso. Acabamos sempre voltando ao mesmo ponto", protesta Richard.

De acordo com uma das repórteres da RFI que trabalha sobre o caso, Christine Muratet, as Forças Armadas Francesas se recusam a comunicar sobre a morte do suposto responsável pelo sequestro. A RFI pôde apurar, no entanto, que ao menos dois outros suspeitos de participação no crime estão presos. "O que acontece com eles? Que informações eles revelaram? Não sabemos mais nada sobre eles", diz Muratet.

Nesta manhã (2), o Sindicato dos Jornalistas da França publicou um comunicado no qual protesta sobre a demora no avanço das investigações. No documento, a organização reclama das autoridades francesas e malinesas. "Como membro das Nações Unidas, a França e o Mali devem fazer de tudo para facilitar o trabalho da justiça. Pedimos que as autoridades dos países considerem a emergência da verdade", diz.

718 jornalistas mortos em 10 anos

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) indica que 718 jornalistas foram mortos nos últimos 10 anos. Só neste ano, 48 foram assassinados exercendo a profissão, entre eles três brasileiros.

De acordo com o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire, 90% dos crimes contra jornalistas permanecem impunes. "Lutar contra a impunidade é essencial. A falta de punição é como uma incitação para aqueles que cometem esses atos", diz.

A RSF batalha pela criação de um cargo especial na ONU para a proteção dos jornalistas. "Em alguns países, muitos dizem que podem sempre matar um jornalista porque, no fundo, essa violência não terá consequência", reitera Deloire.