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Zika vírus e microcefalia atingem os mais pobres do Brasil, diz Le Monde

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Jornal Le Monde com data do 7/02 abre com a manchete: Zika: a epidemia abre o debate sobre o aborto na América Latina. lemonde.fr

Em uma reportagem de duas páginas dedicada à epidemia de microcefalia e a propagação do vírus zika no Brasil, o jornal francês Le Monde nesta segunda-feira (8) constata que esses problemas graves atingem particularmente a população mais pobre do país. As crises econômica e política também dificultam o trabalho do governo para  enfrentar uma emergência de saúde pública comparada à pólio no século 20.


O caso de Gleyse Kelly, de 27 anos, moradora da periferia de Recife, é o ponto de partida para relatar a tragédia que se abate sobre a classe pobre. A foto da jovem com sua filha Maria Giovanni, de quatro meses e vítima de microcefalia, ilustra o artigo intitulado "Zika, o novo flagelo dos pobres".

Segundo Le Monde, Gleyse teve duas depressões seguidas: uma ao saber que estava grávida de seu quarto filho, apenas cinco meses depois de ter dado à luz, e a segunda ao tomar conhecimento que o novo bebê, além de indesejável, seria vítima de microcefalia.

Enviada especial a Pernambuco, estado com 1.447 casos notificados de microcefalia, a correspondente Claire Gatinois constata que Recife se tornou a "capital da zika" no país.

Uma médica do hospital Oswaldo Cruz constatou que o número crescente de casos da má-formação cerebral era anormal e um alerta foi lançado em vários estados do Nordeste. Em novembro, o estado de emergência foi decretado em Pernambuco e em dezembro em todo o Brasil, lembra o diário francês.

Diante da falta de vacinas, os médicos apelam para o medo ao aconselhar às mulheres que evitem engravidar durante vários anos.

Recife quase anula carnaval

Segundo Le Monde, a cidade balneária com um " charme pitoresco" se preparou para o carnaval em meio a uma atmosfera de angústia e paranoia. A prefeitura de Recife chegou a cogitar a possibilidade de anular a festa popular por vários motivos: desde os copos jogados no chão, que podem servir para propagar os mosquitos, até o ambiente propício para casos de gravidez indesejada e a chegada maciça de turistas.

Ao perceber que o vírus está infestado em todo o país, as autoridades locais optaram por informar a população sobre os riscos do mosquito e a microcefalia e fazer campanhas para os visitantes em aeroportos, além de distribuir preservativos.

Fontes ouvidas pelo diário francês lamentaram a falta de investimentos públicos no combate ao mosquito transmissor da dengue, doença que acabou negligenciada e passou a "fazer parte da paisagem".

"A construção caótica da cidade e os cortes de abastecimento de água obrigam os moradores a estocar galões mal fechados, que se transformaram em criadouros do Aedes Aegypti", escreve o jornal. O diário francês constatou que a Igreja Católica local e a sociedade civil aderiram à "batalha" e citou o concurso promovido pela arquidiocese pernambucana para identificar a melhor opção de combater o mosquito.

Apesar de não poupar nenhuma classe social, o mosquito atinge principalmente os que vivem na pobreza extrema, com 70% dos casos de microcefalia assinalados nesta camada da população.

Mulheres abandonadas e sem assistência

No bairro de Ibura, onde existem mais casos de microcefalia, Le Monde observou que o local é infestado de mosquito, as meninas engravidam facilmente na adolescência e não têm vontade de fazer abortos clandestinos, e os raros repelentes custam uma verdadeira fortuna.

Em visita a centros de apoio às vítimas de microcefalia, o jornal francês observou que as jovens mães precisam fazer até três horas de trajeto para terem acesso à uma equipe multidisciplinar para ajudar os bebês a se desenvolverem.

Uma responsável pela Associação AMAR, de apoio às famílias com filhos vítimas de doenças raras, diz que o país terá que lidar com dois problemas: além dos bebês com microcefalias, será preciso cuidar das mães, que não aceitam o problema de seus filhos e estão revoltadas.

O drama ainda é maior para 78% das mães com filhos com deficiências que acabam abandonadas por seus maridos, segundo estatística da Associação. O jornal constata que o Estado não dá a devida assistência social nem financeira para essa população.

O mosquito transmissor do zika vírus virou um caso de saúde pública no Brasil comparável à epidemia da pólio no século 20. O país, que vive uma crise econômica, social, política e orçamentária, não parece pronto a enfrentar essa situação, diz o texto.

Segundo Le Monde, a declaração do ministro da Saúde Marcelo Castro de que o Brasil está "perdendo a batalha contra o mosquito" ganhou ares de um “pedido de socorro ao mundo inteiro”.