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Em plena crise no Brasil, Vuitton faz desfile inédito no Rio de Janeiro

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As linhas futuristas do prédio do MAC em Niterói conquistaram o diretor artístico da Louis Vuitton. Paulinho Muniz / Dilvulgação

Menos de um mês após o desfile Chanel em Havana, agora é a vez da Louis Vuitton apresentar seus modelos em um lugar inusitado da América Latina. A marca de luxo francesa escolheu o Rio de Janeiro como pano de fundo para mostrar sua coleção Cruise 2017, a apenas dois meses do Jogos Olímpicos, mas também no meio de uma das piores crises políticas da história do Brasil.


Os olhos do planeta estão voltados novamente para o Brasil neste sábado (28). No entanto, se nos últimos meses o único assunto que interessava era o impeachment de Dilma Rousseff ou a epidemia de zika, desta vez os jornalistas políticos e esportivos serão substituídos pelos editores de moda e paparazzi do mundo inteiro, reunidos no Rio de Janeiro para assistir ao desfile da Louis Vuitton.

Nascidas nos anos 1920, quando as marcas apresentavam peças alternativas às ricas clientes americanas ávidas de novidades para suas férias de inverno em cantos mais ensolarados do globo, as coleções Cruise (ou Croisière para os franceses) ganham cada vez mais espaço no mundo do luxo. Além de propor modelos mais fáceis de usar – e às vezes mais abordáveis – as grifes aproveitam um momento de calma no ano, entre duas temporadas, para atrair a atenção da imprensa.

Sem a preocupação de seguir um calendário específico de uma das grandes capitais da moda, esses desfiles viajam pelo mundo e os gigantes do setor não poupam esforços para encontrar um cenário inusitado, de preferência exótico, mas sempre com um olho no mercado. Se o desfile da Chanel em Cuba, que deu o que falar, aconteceu ao mesmo tempo em que o país dos irmãos Castro começa a se abrir para o mundo, a marca dirigida por Karl Lagerfeld já chamou a atenção ao construir uma ilha artificial em Dubai em 2014 ou ao propor um show faraônico em Seul em 2015. Mesmo tom do lado da Dior, que convidou, já em 2010, a nata da imprensa e do cinema internacional para ver seus lançamentos em Xangai. Longe de ser uma coincidência, esses eventos acontecem quase sempre em mercados emergentes ou locais que se tornaram passagem obrigatória para os consumidores do setor. E quando se sabe que essas coleções intermediárias podem representar até 50% do faturamento de algumas marcas, a gente entende o porquê de tanto investimento.

Arquitetura futurista e celebridades

No caso de Louis Vuitton, a marca também ficou conhecida por escolher locais em função de suas características arquiteturais, como em 2015, com o desfile Croisière que a grife do monograma realizou na casa californiana de Bob e Dolores Hope, em Palm Springs. Esse interesse pelas curvas futuristas são fruto da paixão que o diretor artístico da marca, Nicolas Ghesquière, tem pela arquitetura. A tal ponto que ele mesmo postou em sua conta no Instagram o anúncio do local escolhido para a apresentação brasileira: o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC). Com seus ares de nave espacial, o prédio projetado por Oscar Niemeyer é um dos mais emblemáticos do arquiteto de Brasília.

Nicolas Ghesquière diante do prédio do MAC ao anunciar desfile da Louis Vuitton. Reprodução Instagram Nicolas Ghesquière

Instalado desde 1996 em uma colina diante da baia de Guanabara, o museu recebe neste sábado nomes como de Catherine Deneuve e Alicia Vikander, todas musas da Vuitton, mas também celebridades de telenovelas brasileiras, o que deve encantar os paparazzi. Ainda mais com uma festa para mais de 400 convidados, que coroa o evento no Parque Lage, no Jardim Botânico, depois do show.

Impeachment de Dilma e zika deixados de lado

O desfile do gigante francês do luxo tem tudo para distrair um pouco a opinião pública, saturada com informações sobre o processo de impeachment, os escândalos envolvendo o governo interino e a crise econômica. Sem esquecer a epidemia de zika, o caso de estupro coletivo que sacode as redes sociais e os preparativos para os Jogos Olímpicos, que começam 5 de agosto, com ou sem infraestrutura adequada.

Se alguns podem ver a iniciativa como supérflua em um momento de crise, a escolha de Vuitton tem também uma dimensão econômica, pois ela mostra que as marcas de luxo não estão dispostas a abandonar o mercado brasileiro. Mesmo diante de um cenário de recessão, poucas grifes querem deixar o país e, por enquanto, apenas Lanvin, Michael Kors e Kate Spade (as duas últimas conhecidas por propor produtos voltados ao chamado “luxo acessível”) anunciaram que pretendem fechar suas portas.

O desfile Vuitton também representa uma ajuda concreta ao país. A marca vai desembolsar R$ 1,5 milhão para financiar exposições futuras do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, em troca da utilização do local. O valor por parecer irrisório diante da situação da instituição, fechada desde 2015 para uma reforma que vai custar mais de R$ 7 milhões, boa parte vinda dos cofres públicos. Mas pelo menos, para os brasileiros, o evento vai mudar um pouco as manchetes da imprensa nacional e internacional quando a palavra Brasil for digitada no Google.