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Renda básica universal reconhece inteligência coletiva

Por Alfredo Valladão

Papai Noel não existe. Os eleitores suíços votaram contra o projeto de uma renda básica universal para todos os habitantes. A ideia era garantir uma renda de 2.500 francos por mês para todos em lugar das diversas formas de assistência e benefícios sociais públicos.

O argumento era que essa renda básica, vitalícia para ricos e pobres, seria a melhor resposta ao desemprego provocado pelas novas tecnologias de automatização da produção. O eleitorado suíço, que sempre foi pé no chão, achou que era festa demais, até para um dos países mais ricos do mundo.

Só que o modelo econômico do planeta está mudando rapidamente, sobretudo nos velhos países industrializados. Essa violenta e profunda transição sócioeconômica está tendo um impacto negativo sobre o nível de vida e as aspirações da classe média. Na Europa e nos Estados Unidos, os salários médios estão parados há mais de 20 anos. Pela primeira vez, desde a onda de prosperidade do pós Segunda Guerra Mundial, a classe média está com medo de que seus filhos não tenham nem emprego nem futuro. O problema é que esse grupo social é quem segura os regimes democráticos.

O sucesso de líderes e movimentos populistas autoritários, de esquerda e de direita, é um sinal inquietante de que desemprego maciço, salários estagnados e um aumento brutal das desigualdades podem provocar caos social e perigosas consequências geopolíticas. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência político-militar do planeta e um populista brucutu na Casa Branca não é uma boa notícia nem para os americanos nem para o mundo. Quanto à Europa, a história mostra como crises sociais podem acabar em violências apocalípticas.

Ideia da renda universal surgiu entre liberais no Vale do Silício

A ideia de uma renda básica universal não é só assistencialismo para impedir a radicalização de grupos que estão perdendo status social. Também existem argumentos econômicos pão-pão, queijo-queijo. Aliás, os primeiros a falar nesse assunto foram jovens empresários do Vale do Silício, o pólo mais liberal de capitalismo selvagem do planeta.

O novo modelo de economia digital só pode prosperar com a participação de toda a sociedade. Todo mundo está cada vez mais conectado e o acesso fácil às tecnologia da informação abre espaço para que qualquer um possa criar novos produtos e serviços. A relação permanente com os consumidores e com as bases de dados onde todos nós deixamos rastros e sinais de nossas preferências é a condição sine qua non para ter sucesso na nova economia. Além do mais, pela primeira vez, graças aos movimentos feministas e à explosão das ONGs, é possível falar da valorização do trabalho doméstico e associativo.

A juventude, hoje, já sabe que o futuro não é um trabalho assalariado estável e que os instrumentos de proteção social governamentais estão falidos. Uma renda básica universal seria um jeito de reconhecer que a nova economia deve quase tudo a essa “inteligência coletiva” da sociedade inteira. É também um modo de garantir um nível de vida mínimo, permitindo que cada um tenha liberdade de subir na vida e enriquecer, se quiser. Não é por nada que essa ideia é promovida muito mais por setores liberais do que pela esquerda tradicional.

Claro, por enquanto é muita utopia. Muita gente acredita que isso só favoreceria o ócio puro e simples. A ideia de que o trabalho remunerado em si é uma necessidade moral ainda está profundamente arraigada. Outro problema é o custo desse projeto. Só sociedades extremamente ricas poderiam bancar tamanho gasto. E isto só será possível quando as novas tecnologias produzirem um tremendo aumento da produtividade, uma abundância de recursos e uma queda significativa do custo de vida.

Até lá, os suíços têm razão: o pais é bastante rico para isso, mas se a medida não for adotada pelo resto mundo, imaginem só as bilhões de pessoas que tentariam emigrar para a Confederação Helvética.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, publica crônica semanal às segundas-feiras na RFI

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