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Saúde
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Sob polêmica, segunda fábrica de mosquitos transgênicos contra dengue abre as portas no Brasil

Por Taíssa Stivanin

A segunda fábrica no mundo que produz mosquitos Aedes aegypti geneticamente modificados abriu as portas na cidade paulista de Piracicaba no final de outubro. O inseto, que transmite o vírus da zika, a dengue e o chikungunya, está sendo produzido pela empresa Oxitec, em parceria com a prefeitura.

Os machos transgênicos soltos na natureza se reproduzem com fêmeas selvagens e transmitem genes que impedem as larvas de se tornarem adultas. O chamado “Aedes do bem” também tem um marcador fluorescente que permite à equipe da empresa rastreá-lo para estudar o seu comportamento e localizá-lo. Inicialmente, serão produzidos 20 milhões por semana, de acordo com a Oxitec.

Segundo a empresa e a prefeitura, o mosquito está sendo usado em Piracicaba desde julho de 2015, e os primeiros resultados mostram uma redução de 91% dos casos no primeiro bairro que recebeu os insetos, o Cecap/Eldorado. De acordo com a bióloga Cecília Kosmann, da Oxitec, o grupo já possuía uma fábrica desde 2014 na região, mas com capacidade 30 vezes menor. A partir de agora, 12 bairros centrais serão atendidos.

“O mosquito tem um hábito prioritariamente diurno e a pessoa geralmente é picada em seu local de trabalho. Protegendo as pessoas que frequentam o centro, e podem carregar potencialmente o vírus, acabamos protegendo outros bairros também”, explica Cecília.

A fábrica, diz, “é como se fosse uma fábrica de biscoito ou parafuso, só que produzimos mosquitos. Existe um sistema de aquacultura, tanques onde a gente cria os mosquitos, e ali dentro tem tudo o que o mosquito precisa: água, comida, temperatura controlada. Nesses tanques criamos ovos na fase de larva, que dura cerca de sete dias. No oitavo dia, quando as larvas viram pulpas, separamos os machos das fêmeas. Eles serão usados em nossos projetos”, descreve Cecília.

A companhia adiciona dois genes no mosquito que o diferenciam dos outros. “Um dos genes é o que chamamos de auto-limitantes, que são transmitidos às larvas. Quando elas eclodem, começa a produção de uma proteína, que não é tóxica”, diz. O fabricante garante que ela não tem efeitos na natureza ou nos humanos.

Outro lado

Christophe Noisette, representante da ONG francesa InfoGM, critica a utilização de mosquitos transgênicos no combate à dengue e outras doenças transmitidas pelo aedes aegypti. Segundo ele, “os estudos fornecidos pela Oxitec não são públicos ou estão incompletos".

A eficácia também é discutível, afirma a ONG. Em Jacobina, na Bahia, onde foi realizado um projeto piloto entre 2013 e 2015, a empresa afirma ter diminuído em 92% os casos de dengue, mas a organização francesa diz que, poucos meses depois dos primeiros mosquitos serem liberados na natureza, o município declarou estado de emergência contra a doença.

Experiências similares, declara, também foram interrompidas em países como a Malásia, ou as ilhas Caimã, diante dos resultados questionáveis. Outro ponto polêmico é o custo da operação.  “Esses mosquitos são financiados são financiados pelas autoridades públicas. É o Ministério da Saúde que decide ou não investir nessa tecnologia", ressalta.

"A questão que colocamos é se, com esse mesmo investimento, não poderíamos ter implantando uma política de saúde pública duplamente útil", afirma Noisette. "Sabemos, por exemplo, que o mosquito se reproduz principalmente nos reservatórios de água. É um local que favorece a transmissão da doença. Em vez de investir milhões para beneficiar uma empresa, não seria mais pertinente reforçar o sistema de canalização para evitar que os mosquitos não se reproduzam nos reservatórios?”, conclui.

Risco para a saúde?

Em relação ao risco do mosquito transgênico para a saúde, a ONG considera que não há dados para garantir a inocuidade do inseto. Segundo a entidade, algumas larvas transgênicas conseguem sobreviver. “O que acontecerá com os animais geneticamente modificados que sobreviverão?”

Questionada, a empresa Oxitec respondeu que cinco estudos realizados em diferentes locais mostraram que o Aedes do Bem suprimiu em mais de 90% a população do Aedes aegypti selvagem, o principal transmissor da dengue, zika e chikungunya. Os resultados obtidos com o uso do Aedes do Bem, explica, se devem a dois fatores. Primeiro: ao menos 97% dos descendentes do Aedes do Bem morrem. Segundo: é muito improvável que os 3% restantes realmente sobrevivam até se reproduzir no ambiente.

"O motivo é simples: eles foram criados e cresceram em uma unidade de produção, com condições como temperatura, umidade e alimentação controladas, e, portanto, são bem adaptados para viver dentro dessas condições e não no ambiente, onde encontrarão condições altamente desfavoráveis”, explica a empresa em um comunicado.

 

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